Falange Resenha | Bingo: O Rei das Manhãs

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náusea vinhetaBingo e o espírito do tempo oitentista

Coloca pra tocar por favor. Grato.

Um passeio no parque: assim era a vida da Rede Globo de televisão durante os loucos e gloriosos anuzoitenta, quando o chamado “Padrão Globo de Qualidade”, aliado à incompetência das concorrentes, colocava a Vênus Platinada quilômetros à frente dos outros canais. Quando a corrida armamentista dos programas infantis começou, com a Xuxa trocando a Rede Manchete pelo canal dos Marinho, a surra de pau mole continuou como já era esperado, até que o programa do Bozo estreou na antiga TVS, atual SBT.

Aí, meu parcêro, foi uma febre: tinha milhões de produtos licenciados com a fuça do Bozo – eu mesmo tinha uma lancheira – a TVS conseguiu a façanha de colocar a Globo em segundo lugar na audiência. No auge, o programa chegou a ter quatro horas de duração, tudo ao vivaço. O palhaço Bozo era uma celebridade, reconhecida no país inteiro, mas o mesmo não podia ser dito do homem por trás da maquiagem: por conta de uma cláusula contratual, o ator que encarnasse o Bozo era proibido de revelar sua identidade, detalhe capaz de mexer com a cabeça de qualquer pessoa nessa situação.

Bozo, junto com Vovó Mafalda e Papai Papudo.
Bozo, Vovó Mafalda (esquerda) e Papai Papudo (direita): a Trindade oitentista.

É disso que se trata Bingo: o Rei das Manhãs, que apresenta a história de Augusto Mendes, personagem levemente – ou não – baseado no ex-ator Arlindo Barreto, o segundo a encarnar o Palhaço Bozo no Brasil e que se viu numa espiral de merda – regada a muito whisky e cocaína – quando ganhou o papel. O grupo dono da marca Bozo não autorizou o uso do nome original do palhaço no filme, e por conta disso a produção optou por usar nomes fictícios. E quer saber? Ainda bem. A Globo virou Mundial; A TVS, virou TVP; O Bozo virou Bingo e Arlindo Barreto deu lugar a Augusto Mendes, o que certamente garantiu um desprendimento ainda maior de uma possível abordagem biográfica.

Bingo em seu programa de TV, no filme Bingo - O Rei das Manhãs, inspirado no palhaço Bozo da década de 80.

70% inspiração. 30% Whisky.

Quando ficou sabendo que só teria direito a uma fala curta no papel de motorista do protagonista da novela das oito, da qual também fazia parte sua ex-mulher Angélica (Tainá Muller) – que foi quem arranjou a oportunidade –, Augusto Mendes (Vladimir Brichta) ficou bem puto e foi cobrar a direção da Rede Mundial de Televisão por mais espaço. A resposta de Armando (Pedro Bial), diretor geral do canal, foi categórica: “Não existe vida fora da Mundial. Melhor ser figurante aqui do que protagonista nas outras.”

Augusto ficou mordido e prometeu dar o troco um dia, só não sabia muito bem como, até que caiu de paraquedas em um dos testes para o Bingo e conseguiu o papel na base da malemolência. Filho de uma atriz respeitadíssima e com a responsabilidade de carregar seu sobrenome, Augusto ia equilibrando sua vida de ator entre pequenos comerciais e as clássicas pornochanchadas, além de ser um pai presente e atuante para o seu filho Gabriel (Cauã Martins), que passou a morar com a mãe depois do divórcio. Bingo entrou na vida de Augusto como um furacão, pro bem e pro mal. O resto, só assistindo, meu parcêro.

Produção

Com roteiros de Luiz Bolognesi (Bicho de Sete Cabeças, Elis), Bingo: O Rei das Manhãs é o primeiro trabalho de Daniel Rezende como diretor. Bastante conhecido no meio cinematográfico pelos seus trabalhos de edição, Daniel ganhou um Bafta e foi indicado ao Oscar em 2003 por Cidade de Deus. E porra, que estreia pau na mesa foi essa, meu camarada!

Atuações

Se existe algum tipo de justiça no mundo, Vladimir Brichta deve ser premiado pelo seu Bingo; só isso.

Bingo lembra o diretor gringo sobre a importância do diálogo. Na imagem a frase se lê "Bingo não é só um palhaço. É uma marca!"

O outro grande destaque foi Augusto Madeira, que defendeu o onipresente Vasconcelos, o cameraman/fornecedor de leite em pó preferido de Augusto Mendes e o responsável por grande parte da fluidez dos diálogos do filme.

Vasconcelos e Bingo, no filme Bingo - O Rei das Manhãs, inspirado no palhaço Bozo da década de 80.

Um destaque igualmente grande, mas por razões quase opostas foi Emanuelle Araújo no papel de Gretchen. Como já falei na última edição do Mesa pra dois, a Gretchen de Emanuelle estava um tesão, cumprindo bem sua função no filme.

Bingo e Gretchen, no filme Bingo - O Rei das Manhãs, inspirado no palhaço Bozo da década de 80.

Abaixo, o tesão. Grato.

Tesão do Náusea

No meio disso, muita gente no pilotão automático e Pedro Bial vergonhosamente canastrão no papel do “Boni” da Mundial. Mas coloco como destaque negativo a rígida e séria Lúcia, a diretora do Programa do Bingo defendida por Leandra Leal, que não convenceu em nenhum momento.

Lúcia Mendes e Augusto Mendes, no filme Bingo - O Rei das Manhãs, inspirado no palhaço Bozo da década de 80.
Jesus! Jesus! Jesus!

Resumindo,

Talvez você já tenha visto a essa altura, até porque essa resenha tá saindo com bastante atraso, mas se ainda não foi, vá. Reafirmo o que falei no último Mesa para dois: você provavelmente vai assistir o melhor filme brasileiro dos últimos e também dos próximos anos. Além disso tudo que falei, o filme ainda pega pelo fanservice pesadaço dos anuzoitenta, o que me agrada pra caralho, como vocês já tão ligados.

Bjundas, até a próxima e o Náusea saiu.