Falange Resenha | Better Call Saul – 3ª temporada

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Vinheta da Mãe SerpenteBetter Call Saul fecha seu terceiro ano com a promessa de uma conclusão grandiosa para a estória de Jimmy McGill. A série terminou hoje sua terceira, e mais recente, temporada. Terminou porque segue um modelo diferente da maior parte das produções originais da Netflix, com apenas um episódio lançado por semana. Apesar disso, a agonia da espera semanal certamente valeu a pena. Bob Ordenkirk mostra, mais uma vez, sua incrível capacidade de atuação no papel de Jimmy/Saul, e, sob o cuidado de Vince Gilligan e Peter Gould, o universo iniciado com Breaking Bad (2008 – 2013) ganha cada vez mais nuance e complexidades.

Ações e intenções

O estrondoso sucesso de Breaking Bad se deve a inúmeros fatores. Excelente elenco, direção de câmera invejável, um roteiro com uma progressão coerente e sem furos. O conceito central, no entanto, representa um dos maiores motivos para o sucesso. Enquanto o audiovisual ainda aposta em narrativas simples, do bem contra o mau, Breaking Bad é um dos raros exemplos em que a moralidade é posta em primeiro plano, e vira alvo de constante discussão. A série está cheia de pessoas boas. A maior parte das personagens possui intenções nobres, causa reais para suas ações. E a maior parte dessas personagens é capaz de cometer atrocidades em prol de uma causa defendida.

Better Call Saul
Personagens já presentes em ‘Breaking Bad’, ou inéditas e apresentadas em ‘Better Call Saul’, seguem o mesmo tipo de questionamento moral que faz das duas séries tão importantes para a televisão contemporânea.

Better Call Saul aprofunda ainda mais a discussão moral iniciada em Breaking Bad. Se na série original o foco era mostrar como fatores externos podem tornar um homem comum em um monstro, o programa derivado se debruça sobre o próprio conceito de certo e errado. A vida de Jimmy McGill, anos antes de adotar o nome de Saul Goodman e abrir mão de qualquer escrúpulo, é cheia de infortúnios. Porém, apesar de escolhas duvidáveis em seu passado, Jimmy se esforça para conseguir um lugar de respeito como advogado, posição em que, teoricamente, deveria defender a Lei.

Acontece que Jimmy não possui a mesma confiança na Lei que seus colegas. Existe uma entidade maior que guia suas ações, a Justiça. E em meio a tantos problemas jurídicos, Jimmy compreende que nem sempre a Lei é capaz de ser justa. Nesses casos, Jimmy toma para si a tarefa de trapacear e forçar situações que favoreçam o resultado pretendido. Better Call Saul, então, gira sobre uma disputa muito humana. Como seres sociais, é necessário criar e proteger códigos gerais de conduta, leis, para garantir a igualdade de tratamento de todos. Como seres humanos, nossa vontade muitas vezes é atrapalhada por essas mesmas leis.

Better Call Saul
A terceira temporada começa a partir do ponto final da anterior: Jimmy se torna réu em um processo graças aos caprichos de seu irmão, Chuck.

Jimmy é uma boa pessoa. Possui boas intenções, quer proteger aqueles que ama, e tem um grande senso de justiça. Intenções, no entanto, não são o que movem o mundo. E as ações criminosas de Jimmy, e as consequências dessas ações, empurram o advogado cada vez mais em direção ao ponto em que o encontramos em Breaking Bad. A terceira temporada de Better Call Saul, assim, anuncia um fim, em breve, para a jornada de Jimmy e a ascensão de Saul. E não é só essa a personagem que caminha a passos largos para sua versão futura.

Muito além de Saul Goodman

A ideia de uma prequela de Breaking Bad enfrentou algum ceticismo antes de sua primeira temporada. Saul Goodman é fantástico, mas talvez não fosse suficiente para sustentar uma narrativa por conta própria. Contudo, assim que os primeiros episódios de Better Call Saul foram exibidos, ficou claro que a série era muito mais do que a tentativa de esticar o sucesso de Breaking Bad. O elenco é excelente, com a inclusão de personagens inéditas, como o irmão de Jimmy, Chuck (Michael McKean); seu interesse amoroso, Kim Wexler (Rhea Seehorn); e Nacho Varga (Michael Mando), o capanga de Don Hector Salamanca (Mark Margolis).

O sucesso de crítica e de público das duas primeiras temporadas é justificado por um equilíbrio entre novos rostos e aqueles já conhecidos. A estória não só explica, aos poucos, como Saul Goodman nasceu. Introduz novas camadas à trama que eram desconhecidas. E ainda se preocupa em servir como o arco de origem para outros grandes nomes de Breaking Bad.

A terceira temporada investe, ainda mais, no plano de fundo de crimes e drogas que ocupa Albuquerque. A presença de Giancarlo Esposito, no papel de Gus Fring, é sempre uma adição mais do que bem vinda. E as relações que Gus constrói com Ehrmantraut (Jonathan Banks) dão ainda mais sentido para as ações do velho ranzinza no futuro. Há ainda o conflito constante entre Gus e o Cartel, materializado pelo Tio Salamanca, ainda fora de sua cadeira de rodas, e capaz de falar utilizando mais do que uma sineta. Com um roteiro tão preciso e detalhado quanto na série anterior, a terceira temporada de Better Call Saul se ocupa de introduzir o fechamento de narrativas importantes. O que significa que dificilmente a série irá ultrapassar um quarto arco.

Better Call Saul
O confronto, e parceira, entre Gustavo Fringe e Mike Ehrmantraut se torna um dos eixos principais da narrativa na terceira temporada.

Better Call Saul, por conta própria

Se havia alguma dúvida de que Better Call Saul é um título próprio, e não apenas um derivado, a terceira temporada desfaz a confusão. O universo idealizado por Vince Gilligan é extremamente rico, e está pronto para ser explorado a partir de perspectivas diferentes. O uso da câmera ainda brinca com o foco e imagens embaçadas. E a quase que ausência de uma música de fundo ao longo das cenas contribui para o fotorrealismo pretendido. Mas as comparações diretas com a estética de Breaking Bad não vão muito além desses elementos próprios do criador.

Better Call Saul tem um ritmo próprio, menos introspectivo, mas também menos dependente de cenas de ação. A excentricidade de Jimmy/Saul também dá espaço para uma paleta de cores mais variadas e vivas. Temáticas secundárias deixam o campo do abuso de drogas, para recair sobre o excesso de trabalho e a esquizofrenia. Por fim, enquanto a estrutura narrativa de Breaking Bad acompanhava a ascensão e subsequente queda de Walter White, o fluxo dramático é o oposto em Better Call Saul. A série mostra primeiro a queda de Jimmy McGill, para então criar o vácuo necessário para a vitória de Saul Goodman. Direção similar à que Mike Ehrmantraut toma, e, agora de forma direta, Gus Fring.

Ainda existe muito o que mostrar para que o cenário de Breaking Bad seja definitivamente construído. Mas Better Call Saul já chegou em tal ponto de excelência que não depende mais da série original para garantir sucesso, ou público. É claro que fãs de longa data da obra de Gilligan podem se divertir encontrando referências. Isso, entretanto, não é necessário para que se aprecie o resultado final de Better Call Saul. Cada vez mais o talento combinado de elenco, roteirista e direção garante um espaço próprio para uma das melhores séries em curso da televisão atual.

Better Call Saul