Falange Resenha | Atômica

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Vinheta da Mãe Serpente1989. A mundo vê uma derrota eminente do regime soviético, e o fim da Guerra Fria. Mas até que o muro caia, Berlim está tomada por espiões, ocidentais e orientais. E uma misteriosa lista, com o nome de todos os agentes duplos, de todos os lados, surgiu na cidade. O britânico responsável pela segurança da lista foi assassinado, e agora Lorraine Broughton precisa ir para a Alemanha, desvendar a morte de seu colega e recuperar o misterioso microfilme. Mas em uma cidade de espiões, em quem confiar? A partir de um roteiro baseado no excelente quadrinho A Cidade Mais Fria, Atômica entrega um dos melhores filmes de ação da década.

Dublês no comando

Em 2014, fomos todos surpreendidos por um filme de ação chamado De Volta ao Jogo (John Wick). A maior parte dos filmes de ação são entradas genéricas no gênero, cada uma tentando impressionar mais o público com novos e explosivos efeitos especiais. O sucesso da franquia John Wick, no entanto, se deu pelo caminho oposto. Ao invés de apostar na pós-produção, a equipe de John Wick investiu numa pré-produção com treinamento intensivo para os atores. O resultado é fenomenal. Poucos cortes, planos-sequência, atores realmente preparados para simular cenas de ação desenfreada.

Grande parte desse sucesso se deve a David Leitch e Chad Stahelski. Ambos dublês, extremamente experientes, e com participação em dezenas de filmes de ação. Nenhum deles na criação de um filme próprio antes de John Wick. David visualizou a linguagem ideal para um filme de ação, e Chad o ajudou a concretizá-la. A prática como dublê é o que permitiu David pensar em como cenas de ação poderiam ser melhor aproveitadas. E isso deveria ser uma lição para Hollywood, já que o cinema é uma produção coletiva, e todos os envolvidos são capazes de contribuir para o resultado final. Não apenas diretores e roteiristas.

Atômica absorve tudo o que a equipe de produção de John Wick aprendeu com os dois filmes anteriores, e reproduz a mesma excelência de montagem. A câmera segue de perto cada movimento coreografado de Charlize Theron, com o mínimo de cortes possíveis. Mesmo quando cortes são introduzidos, a transição é clara, e permite que o espectador acompanhe com detalhe como cada personagem interage um com o outro, independente de quantas pessoas estejam envolvidas nas cenas de ação. É uma dança precisa, bela por causa também de suas falhas. Isso porque mesmo os tropeços, quedas e escorregões são criados de forma a aumentar o realismo dos confrontos.

Cena do filme Atômica, ou Atomic Blonde, baseado no quadrinho A Cidade Mais Fria, ou The Coldest City. Na imagem, Lorraine Broughton, interpretada por Charlize Theron, luta contra dois policiais.
Fazer cenas de ação críveis é uma tarefa difícil. Mas ‘Atômica’ está repleto de sequências belíssimas.

Atriz Atômica

Um filme que conta com James McAvoy e John Goodman no elenco está destinado a ter pelo menos algo de bom garantido. O grande destaque, no entanto é Charlize Theron. O que não é nenhuma surpresa. Charlize já ganhou um Oscar por sua brilhante atuação em Monster – Desejo Assassino (Monster, 2003). E para a cultura dos blockbusters, a atriz ganhou o mundo com a Imperatriz Furiosa de Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, 2015). De novo, Charlize dá vida a uma personagem feminina complexa, sem que precise se distanciar de elementos comuns a gêneros mais populares, como é a ação. Mas se Lorraine Broughton é uma personagem tão interessante, é possível se identificar com ela também por escolhas conscientes de roteiro. Não se resume, a nenhum instante, a figura feminina de Lorraine a uma posição de fragilidade. Não existe nem mesmo a tentativa de reduzir o nível de violência por conta da presença feminina.

Charlize é posta em pé de igualdade com os adversários, e ninguém poupa socos, chutes, facadas, tiros. A cena de abertura de Atômica já é um atestado da intenção geral do filme, em relação à representação feminina. O corpo nu de Charlize ocupa toda a tela, coberto de cortes, cicatrizes e hematomas. A beleza da personagem ali presente, em conjunto com as marcas que atestam sua proeza física. E isso sem nunca dar a Lorraine Broughton uma figura masculinizada. Dessa forma, Atômica respeita o material de base, e mantém uma figura feminina forte, sem que seja necessário abrir mão da sensualidade. Lorraine é tão capaz de seduzir quanto de lutar, as duas facetas em complemento, não em disputa.

Cena do filme Atômica, ou Atomic Blonde, baseado no quadrinho A Cidade Mais Fria, ou The Coldest City. Na imagem, Lorraine Broughton, interpretada por Charlize Theron, mostra o rosto cheio de hematomas e feridas.
É raro que filmes de ação mostre o resultado da pancadaria. Os envolvidos normalmente saem sem marcas visíveis. É ainda mais raro que personagens femininas tenham os corpos marcados, principalmente em filmes que não tentam apagar sua sensualidade.

Cores e sons

Apesar de se basear na estória original de Antony Johnston, Atômica tem sua própria interpretação do universo de espionagem. Os quadrinhos traçam um mundo sóbrio, escondido nas sombras, que não é propício ao confronto direto. Para fazer um filme de ação, era necessário modificar o contexto. Atômica pinta um cenário muito mais vibrante e colorido que as páginas em preto e branco. Mas o monocronismo ainda assim é respeitado. Ao longo do filme, as luzes neon pintam as cenas de amarelo, rosa, vermelho. Mas sempre é uma única cor que se destaca, criando o contraste com o guarda-roupa de Lorraine, totalmente branco ou totalmente preto. É uma forma inteligente de respeitar a escolha estética da obra original, e ainda introduzir muito mais movimento e vibração, características mais adequadas para o público de cinema.

Cena do filme Atômica, ou Atomic Blonde, baseado no quadrinho A Cidade Mais Fria, ou The Coldest City. Na imagem, Lorraine Broughton, interpretada por Charlize Theron, beija uma espiã francesa em uma sala completamente vermelha.
A vida noturna de Berlim é um dos palcos para o desenrolar da trama, o que permite o uso criativo do neon, e cria a necessidade de novas versões de personagens dos quadrinhos.

A música também cumpre um papel essencial na construção do cenário. A batalha entre espiões agora se passa em um ambiente mais jovem, em que a repressão estimula a rebeldia. O filme se aproxima da resistência cultural da juventude alemã oriental, com a adoração de marcas, ícones e artistas dos Estados Unidos. Cheio de clássicos do rock e da música eletrônica, a edição ainda brinca com o volume ou a posição do som, ao transformar uma faixa de fundo naquilo que é escutado por fones de ouvido. Ou quando a música de um rádio cresce e passa a ditar o compasso da cena seguinte. São recursos criativos, que mostram a atenção da equipe em criar uma experiência estética para além das brigas e tiroteios.

O roteiro de Atômica, mais previsível que a obra original, ainda assim se esforça por manter o clima de reviravoltas constantes. E, no meio do caminho, personagens ganham novas roupagens, ou novos desfechos se desenham para situações já conhecidas. Assim, mesmo leitores de A Cidade Mais Fria podem ter o prazer de não saber ao certo como o filme irá concluir seu enredo. Atômica é um filme belo de se ver, cuidadoso em sua direção de ação, e com atuações fantásticas. E como sua origem se deu como desdobramento de uma franquia, é provável que Lorraine Broughton ainda surja em continuações. Ainda bem.