Falange Resenha | Assassinato no Expresso do Oriente

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Vinheta de BastilleBonjour! O livro Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express), lançado em 1934, é um dos grandes sucessos da autora inglesa Agatha Christie, que estrela seu detetive mais famoso, Hercule Poirot. 83 anos depois, o diretor e ator britânico Kenneth Branagh dirige uma nova adaptação da estória nos cinemas, além de atuar como Poirot.

A essência de Agatha Christie

Agatha Christie (1890-1976), considerada como a Rainha do Crime, criou para suas estórias de detetives uma infraestrutura agora clássica. Um crime, vários personagens que têm algo para esconder e são suspeitos potenciais, e um excelente detetive que analisa todos os detalhes relevantes do incidente e da vida dos suspeitos para, aos poucos, desvendar o mistério. Essa estrutura, junto com uma escrita fluida, faz com que ler Agatha Christie seja instigante sem ser cansativo. Apesar de tratar de crimes de resolução complexa, todos os elementos acabam por se ligar para dar lugar a uma solução simples. E as estórias dão ao leitor a possibilidade de tentar resolver os crimes por conta própria, se colocando na pele do detetive; é possível também apenas acompanhar o detetive e receber a solução sem esforço. Isso certamente contribui para a popularidade das novelas e contos da autora, uma das mais lidas do mundo.

Um dos pontos fortes de Assassinato no Expresso do Oriente é que o filme segue essa estrutura. Em uma viagem de trem, um passageiro é achado morto em sua cabine, e todos os outros viajantes se tornam suspeitos. O detetive da vez é o famoso Hercule Poirot, “certamente o melhor detetive do mundo”, segundo ele mesmo. O filme começa apresentando o personagem e suas especificidades, tal como seu gosto por ordem e arrumação. A maior diferença inicial com o livro é o local em que Poirot se encontra antes de embarcar no Expresso do Oriente, mas nada que afete o desenrolar da trama. Uma vez que está no Expresso, não há diferenças significativas em relação à narrativa do livro. Logo, os leitores de Assassinato no Expresso do Oriente não irão se surpreender com o filme. O que não é nenhum problema, já que não se trata de algo inspirado na novela, mas sim de uma adaptação direta.

Personagens bem construídas

Algo necessário nas estórias de Agatha Christie é ter vários suspeitos. A resposta de quem cometeu o crime não pode ser óbvia; precisamos pensar que cada um deles pode ser o culpado. Para que a dúvida sobre a identidade permaneça até o fim do filme, duas coisas são essenciais: que as personagens sejam construídas minuciosamente e que os atores deem credibilidade a eles. Em Assassinato no Expresso do Oriente, felizmente, ambas são presentes.

Imagem do filme Assassinato no Expresso do Oriente (ou Murder on the Orient Express). Na imagem, dentro do Expresso do Oriente, vê-se o elenco principal do filme.
O elenco principal do filme conta com vários rostos conhecidos do cinema.

No trailer, e no início do filme, cada personagem pode ser resumida em uma palavra – o Professor, o Mordomo, o Conde (e a Condessa), o Assistente, a Governanta, a Missionária, a Viúva, o Vendedor, a Criada, o Médico, a Princesa. Porém, aos poucos, são mostradas como mais complexas, e se possuem álibi, também descobrimos que podem se beneficiar da morte do outro passageiro. Flashbacks são usados para auxiliar na construção dos personagens. O preto e branco usado nessas cenas é extremamente inteligente por dar a possibilidade de voltar várias vezes no tempo sem que o espectador fique confuso em nenhum momento.

O elenco conta com grandes nomes do cinema, como Willem Dafoe, Penélope Cruz, Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, e Judi Dench. Não só eles como também Daisy Ridley, Josh Gad, Leslie Odom Jr. e todo o resto do elenco dão vida aos seus personagens de forma brilhante. Isso se se desconsiderar a única cena de ação do filme, uma perseguição estrelada por Josh Gad (Hector MacQueen) e Kenneth Branagh (Hercule Poirot) e que deixa muito a desejar – a queda de MacQueen é especialmente ruim.

A interpretação mais problemática e mais difícil do filme, na minha opinião, foi a de Kenneth Branagh como Hercule Poirot. Interpretar o Poirot significa ter que falar inglês com um sotaque belga, e incluir palavras francesas ao seu vocabulário, sempre com o sotaque específico da Bélgica, país de onde Poirot é originário. Uma proesa difícil que nem sempre Branagh consegue, resultando em uma sensação de esforço quando ele fala francês. Algo que boa parte do público nem irá perceber, mas que não pude deixar de notar. O visual do Poirot conta com o bigodão esperado. A aparência geral dele funciona muito bem no filme, contribuindo para a personalidade ao mesmo tempo séria e extravagante de Hercule Poirot.

Imagem do filme Assassinato no Expresso do Oriente (ou Murder on the Orient Express). Na imagem, vê-se o detetive Hercule Poirot, com seu reconhecível bigode.
A figura de Hercule Poirot é bem reconhecível, principalemente graças ao bigode.

Problemas de cenário

O Expresso do Oriente, ou Orient Express, foi um trem que ligava a parte ocidental da Europa à Turquia. Na novela e no filme, os passageiros partem de Istambul com o objetivo de chegar à França, e para isso precisam atravessar vários países, que oferecem paisagens incríveis ao longo do caminho. A montanhas cobertas de neve por quais passa o trem várias vezes são mostradas em planos amplos. Ao contrário do que é costume em um cenário desse, o que é valorizado não é uma imensidão uniforme, mas sim os picos das montanhas, as linhas diagonais que oferecem e contrastes fortes entre neve e escuridão. A visão do cenário montanhoso, então, não passa uma sensação de paz e tranquilidade, mas sim de perigo e agitação.

A paisagem é muito bem aproveitada na maioria das amplas tomadas diurnas, porém o filme sofre com alguns problemas visuais. O uso de computação gráfica é muitas vezes perceptível, principalmente em tomadas únicas em que não há transições entre o cenário exterior – as montanhas – e o cenário interior – o trem. Em várias dessas cenas, a CG não é detalhada o suficiente para se mesclar sutil e naturalmente com o cenário existente. Outros momentos em que o uso de CG é evidente são aqueles em que a neve caindo é mostrada de noite; os flocos aparecem apenas como pontos azuis luminosos, ao invés de mostrar algum tipo de delicadeza e complexidade. A cena final do filme, que encerra o caso ao mostrar Hercule Poirot descendo do trem e partindo por outra aventura, é muito bonita e sutil. Quer dizer, seria muito bonita e sutil, se não fosse vítima deste mesmo problema de CG grotesca. Os efeitos digitais não conseguem se mesclar, e o resultado é um pôr do sol completamente inverosímel. 

Vale a pena assistir a Assassinato no Expresso do Oriente?

Apesar de alguns problemas visuais pontuais atrapalharem a experiência de imersão, é necessário apontar que a câmera é geralmente usada de forma a transmitir toda a tensão que está presente no Expresso do Oriente, nomeadamente através de contra-plongée e outros ângulos incomuns. Isso, junto com personagens interessantes e bem interpretados, contribui para manter a atenção do espectador ao longo das quase duas horas de filme. Fãs de Agatha Christie com certeza deveriam dar uma chance para a adaptação, e acredito que fãs de mistério e investigação de uma forma geral irão apreciar a versão de Kenneth Branagh de Assassinato no Expresso do Oriente.