Falange Resenha | Ash vs Evil Dead – 2ª Temporada

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Vinheta da Mãe SerpenteExistem alguns pré requisitos para uma boa produção trash. E a segunda temporada de Ash vs Evil Dead traz todos os elementos essenciais desde seu primeiro episódio. Membros decepados, gosma, litros de sangue falso espirrados na tela. A série continua sua homenagem aos filmes de horror B, e dá continuidade à tradição iniciada em Uma noite alucinante (The Evil Dead, New Line, 1981) em grande estilo.

Um bom gancho

O final da primeira temporada de Ash vs Evil Dead é um dos maiores exemplos de anticlímax na história do audiovisual. Depois de dez episódios lutando contra demônios e mortos-vivos, Ash se vê cara a cara com Ruby, a autora do Necronomicon. Mesmo em posse da única arma capaz de ferir um ser tão poderoso, Ash desiste de lutar, e faz uma trégua com a entidade que pretende governar o mundo com um exército de criaturas invocadas do inferno. A última cena mostra Ash em seu carro, ao lado de Pablo e Kelly, rumo à prometida vida de bebedeira e festa, enquanto tudo é destruído atrás de si. A cena, absurda e hilária, foi pensada não só para provocar ataques de risos (o que consegue). O final deixou aberto o futuro da série, de modo que, em uma segunda temporada, seria possível criar qualquer coisa.

E é com um bom gancho que a segunda temporada de Ash vs The Evil começa. A trama, mais concisa que na primeira, gira em torno de uma repentina mudança de lado de Ruby. As criaturas das trevas que a vilã invoca roubam sua imortalidade, e agora ameaçam a vida da mãe na procura do Necronomicon, com o objetivo de trazer seu pai, Baal, à Terra. Ruby não vê opção a não ser se acabar com as merecidas férias de Ash e seu time, para impedir o retorno do demônio. É claro que isso não dá muito certo, e em poucos episódios Joel Tobeck sai das chamas do inferno, no papel de Baal.

Baal é uma personagem baseado no demônio bíblico de mesmo nome, conhecido como um dos sete príncipes do inferno.

A presença de um vilão central ajudou muito a manter a coerência da narrativa, já que todos os episódios contam com um mesmo eixo temático. Essa havia sido uma das principais falhas da primeira temporada de Ash vs Evil Dead, que se perdeu um pouco ao tentar encaixar muitas ideias diferentes em um espaço muito curto para contê-las. Isso demonstra um desenvolvimento claro da equipe de produção da série, que ainda conta com Sam Raimi e Bruce Campbell. E serve de indicação para um futuro ainda mais promissor, na já confirmada terceira temporada.

Outro novo personagem digno de nota é o pai de Ash, interpretado por Lee Majors. A relação conturbada pai e filho é explorada em todos seus clichês, constantemente interrompidos pelo sangue e pelas mortes que brotam na tela. Trabalhar com os clichês, e quebrar as expectativas, já se tornou marca de Ash vs Evil Dead.

Permanências e melhorias

Com o sucesso de Ash vs Evil Dead, a série ganhou mais verba para a produção de sua segunda temporada. O resultado final é explicitamente alterado por isso. O sangue ainda parece falso, e as próteses são obviamente feitas de borracha. Mas, como elementos centrais da estética trash, a permanência da inverossimilhança é um aspecto positivo. Os cenários, no entanto, são visivelmente melhor construídos, há ainda mais cenas de caos e destruição.

entre os desafios Enfrentados pro Ash na segunda temporada, se incluí uma batalha contra um carro possuído, brilhantemente filmada.

Os movimentos da câmera ainda respeitam os filmes clássicos, com tomadas em primeira pessoa e cenas de perseguição. Mas houve, também, a liberdade criativa de experimentar novas técnicas audiovisuais. Os poderes de Baal, um vilão capaz de induzir humanos a ações, também dão vazão a novas possibilidades de contar uma estória. Um dos melhores episódios da temporada, Delusion, é uma demonstração clara disso. Todo o episódio brinca com a ideia de Ash, na verdade, ser louco; um efeito dos poderes de Baal, na tentativa de quebrar a mente teimosa do herói.

O formato padrão da série, com episódios que duram entre 25 e 32 minutos, é um dos grandes acertos que retornam da primeira temporada. O cinema trash é divertido, faz rir, provoca caretas de nojo no espectador. Mas a supersaturação de cenas grotescas tem um efeito contrário ao esperado. Episódios maiores tirariam o choque causado pelas cenas brutais e caricatas, e correriam o risco de não divertirem tanto os fãs. Aproveitado em doses pequenas, Ash vs Evil Dead é melhor digerido.

Por falar em cenas grotescas, a entrada da série também mantém seu criativo padrão. Após um breve prólogo, uma ação qualquer causa um jorro de sangue na tela, em direção ao espectador. E é desse jorro de sangue que surge a logo de abertura. Outro padrão digno de nota é a seleção de músicas dos anos 80 que encerram cada episódio.

Ash vs Evil Dead | De volta à cabana

Assim como na primeira temporada, a série reutiliza temas e imagens dos filmes originais para construir sua narrativa. É por esse motivo que ambos os season finales se passam na cabana assombrada, a maior antagonista de Ash em toda sua história cinematográfica. Apesar da aparente repetição, os roteiristas conseguem criar novos jeitos das personagens interagirem com a cabana, e a mudança de contexto traz o frescor necessário para que a referência e o saudosismo não se tornem monótonos na repetição.

Desde 1989 a cabine na floresta é cenário recorrente na saga da ‘Morte do Demônio’.

O desfecho da temporada possui uma estratégia similar à primeira: concluir um estória com pontos soltos suficientes para uma possível, mas não obrigatória, continuação futura. Dessa vez, no entanto, os furos de roteiro são mais do que intencionais. Ao explorar a viagem no tempo, em um resgate de Uma noite alucinante 3 (Army of Darkness, Universal, 1993), o roteiro não consegue dar conta da continuidade. E a falta de sentido incomoda. Mais do que um anticlímax, o final da segunda temporada deu a sensação de ser uma tentativa apressada de fechar uma arco que ainda necessitava de explicações.

Agora, Raime e Campbell tem uma escolha difícil em mãos. Se ignoram as falhas no roteiro, produzem uma terceira temporada sem grandes relações com a segunda. Se se debruçam sobre a explicação dessas falhas, podem comprometer o andamento de uma estória independente. Ambas as opções representam grandes desafios para Ash vs Evil Dead. Mas, com uma perceptível melhoria da segunda temporada para a primeira, resta esperar o fim de 2017 e confiar na qualidade da série.