Falange Resenha | Ao Cair da Noite

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Mãe SerpenteUm vírus mortal faz com que humanos adoeçam rapidamente, e em pouco tempo o número de mortos é grande o suficiente para que a sociedade entre em colapso. Sem informação precisa sobre formas de contágio, prevenção ou cura, quem não padece precisa encontrar meios de sobreviver nesse futuro tenebroso. A disputa por suprimentos escassos, e para se proteger do contágio iminente, torna todo humano em um potencial inimigo. O ponto de partida de Ao Cair da Noite (It Comes at Night) é similar a todo o gênero do apocalipse zumbi. É impressionante, então, comprovar o quanto o filme se destaca.

Mudança de escala

Para tratar de um tema saturado, Trey Edward Shults, diretor e roteirista de Ao Cair da Noite, segue um caminho oposto ao normalmente trilhado por esse tipo de obra. Não se vê, em nenhum momento do filme, a real destruição causada pelo surgimento do vírus apocalíptico. Ao invés de grandes centros urbanos, a trama se ocupa de uma casa no meio da floresta, onde uma pequena família tenta sobreviver. Não há as dezenas de corpos habitualmente espalhados pelas estradas. Nem sinais de fuga, como carros abandonados e vidraças de mercados quebradas. O cenário se concentra apenas na habitação de Paul (Joel Edgerton), Sarah (Carmen Ejogo) e Travis (Kelvin Harrison Jr.) e nas árvores que se estendem por centenas de quilômetros ao redor.

Essa mudança de escala é necessária para o foco do filme, que trata mais das relações íntimas entre pessoas do que do vírus mortal. Mas não destoa do próprio cenário zumbi já presente no imaginário comum. Isso porque se uma doença se espalha rapidamente, o melhor a se fazer é fugir de aglomerados humanos. Uma casa no meio do nada é a melhor chance possível de sobrevivência. Paul, no entanto, não é o único que tem essa ideia. E não demora muito para uma nova família surgir na trama. Will (Christopher Abbot), sua esposa Kim (Riley Keough), e o filho de cinco anos do casal, Andrew (Griffin Robert Faulkner).

Ao Cair da Noite - It Comes At Night
A proteção pretendida pelas personagens pode parecer excessiva, em alguns momentos. Mas essas ações são comprovações do desespero causado pela situação. E nada mais certo sobre a natureza humana do que o desespero levar à perda da humanidade.

Sem viradas surpreendentes de roteiro, e sem se preocupar com explicações científicas ou sobrenaturais, Ao Cair da Noite trata do encontro entre os sobreviventes. Existe a necessidade de unir recursos e esforços para aumentar as chances de sobrevivência. Mas, em um mundo sem leis e sem regras, como confiar no outro? Paul e Sarah temem que os estranhos que chegam ameacem sua família, e convidá-los para sua casa é uma decisão tomada com cautela e vigilância. De forma similar, Will e Kim não confundem a hospitalidade oferecida com segurança. Afinal, se é difícil ter uma perspectiva de futuro nessa realidade, qualquer vantagem deve ser disputada com todas as forças. E, de forma simples e direta, a escassez de recursos torna o estrangeiro em um inimigo.

Sensorial

A produtora e distribuidora A24 ganha cada vez mais reconhecimento no mercado por investir em projetos experimentais. Boa parte desses projetos inova na sua forma de contar uma estória, mesmo com um orçamento mais limitado. É sob os cuidados da empresa que se desenvolveram filmes brilhantes como A Bruxa (The Witch, 2015), Ex_Machina: Instinto Artifical (Ex_Machina, 2015) e Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight, 2016), este último ganhador do Oscar de melhor filme. No caso de Ao Cair da Noite, Trey Edward Shults, apesar de um novato na indústria, já é capaz de dar originalidade ao uso da câmera, iluminação e edição de sons e imagens.

Com uma narrativa intimista, Ao Cair da Noite criar uma ambientação que afete a percepção sensorial do espectador. A casa em que a trama se desenrola está, a quase todo instante, imersa em escuridão. A ausência de eletricidade, e a necessidade de embarreirar portas e janelas, faz com que, muitas vezes, o único foco de luz venha de lanternas e lampiões. Um recurso comum de filmes de terror é permitir enxergar zonas escuras, de modo artificial; o espectador possui uma clareza de visão que a personagem presa nas trevas não tem. Ao invés disso, em Ao Cair da Noite, a visão de personagem e espectador se coincidem, e somente o que é iluminado por lanternas se torna visível. Além de uma fotografia belíssima, esse recurso permite manter, a todo instante, o medo e a tensão desejados. Os sons também não destoam daquilo que seria ouvido em uma casa no meio da floresta. Mas, como existe sempre a presença de um perigo desconhecido, o simples estalo da madeira ganha uma aura ameaçadora.

Ao Cair da Noite - It Comes At Night
O uso da iluminação artificial como fonte única de iluminação ajuda também a guiar o olhar do espectador, dando destaque a pessoas e objetos em cenas determinadas.

Trey Edward Shults ainda brinca, de forma brilhante, com a ideia batida dos jump scares. Qualquer amante de filmes de terror espera que, se a câmera se aproxima lentamente de uma porta, algo irá surgir e assustar personagens e espectador. Ou quando o foco se concentra em uma janela. Ou quando alguém, no meio da noite, entra em um quarto vazio sozinho. Ao Cair da Noite utiliza a mesma estrutura reutilizada à exaustão dos jump scares para que, no fim das contas, a expectativa não seja concretizada. Isso é um modo sutil, mas extremamente eficiente, de manter o nível de adrenalina do espectador no seu ápice. Se o espectador se prepara para que um susto aconteça, e ele não acontece, a previsão de ser assustado a qualquer instante não tem uma conclusão, e o estado de alerta se prolonga.

Ao Cair da Noite é filme de terror?

Conforme o cinema cria novas obras, alguns gêneros se modificam, enquanto outros são criados ou desaparecem. O terror (ou horror), normalmente, é associado a monstros, aparições, demônios. Um perigo inumano que persegue pessoas. Nos últimos anos, no entanto, temos obras fantásticas que nem mesmo precisam utilizar do sobrenatural para construir uma atmosfera de medo. Recentemente, por exemplo, tivemos o excelente Corra! (Get Out, 2017). Mas se não fossem terror, o que mais seriam? São filmes que causam tensão e repulsa no espectador. Filmes que obrigam a encarar uma realidade incômoda. Não são mais monstros a maior fonte do medo nessa nova leva do terror, mas isso não torna a construção dos filmes menos incômodas, desconfortáveis. E, no fim das contas, são esses os sentimentos associados com o gênero do terror: desconforto e medo.

Mais interessantes do que criaturas genéricas e repetidas à exaustão, os conflitos humanos como causadores de aversão, ansiedade ou pavor dão um sentido maior para o gênero do horror. Ao invés de só servir de entretenimento, o horror pode levar à reflexão. O grande estímulo emocional desse gênero pode mesmo fazer com que o público encare de forma mais consciente aquilo de podre que existe dentro de si. É necessário que fique claro que esse tipo de filme não serve a um entretenimento descompromissado. Mas, desde que exista essa distinção para o público antes do pagamento do ingresso, é extremamente saudável para  indústria que haja espaço também para essa nova construção do terror.

Ao Cair da Noite - It Comes At Night

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Crítico de videogames, observador atento da cultura pop, viajante extraplanar e conhecedor das artes ocultas. Um membro da Falange.