Falange Resenha | Antes o Tempo Não Acabava

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Vinheta do Professor LumièreOlá, queridas e queridos membros da Falange! Aqui quem fala é o Professor Lumière, seu correspondente de cinema no QG. Hoje vou falar sobre Antes o Tempo Não Acabava, coprodução brasileira e alemã vencedora do Internationl Queer Film Festival em Lisboa, Melhor Filme, Roteiro e Ator no Festival de Cinema de Vitória e Melhor Filme e Melhor Roteiro no 10º For Rainbow. A trama acompanha um jovem indígena que, após entrar em conflito com os líderes de sua tribo, vai morar em Manaus e precisa encontrar sua identidade num lugar em que as culturas e os hábitos são diferentes dos seus. Veja o trailer abaixo:

O primeiro ato de Antes O Tempo Não Acabava lembra muito os temas dos ótimos Boi Neon (2016) e Corpo Elétrico (2017), no sentido de que a trama acompanha personagens que seguem vidas e rotinas bem diferentes do resto da população brasileira. Nos três filmes, as pequenas humilhações sofridas pelos trabalhadores de classe baixa surgem pontualmente e de forma quase casual, mas causam um incômodo eficiente quando fazem o público pensar que esse tipo de incidente acontece todos os dias, por todos os cantos do país.

No entanto, se em Boi Neon é possível enxergar alguns elementos mais comuns da rotina do público e Corpo Elétrico tem ainda mais paralelos com uma parcela maior do público, Antes o Tempo Não Acabava segue um caminho completamente diferente desde a primeira cena. Um início quase em forma de documentário desperta a atenção para o que parece ser mais uma das maravilhas indígenas, mas que acaba resultando em uma das cenas mais cruéis do ano.

O tom documental inclusive é o que guia a produção do filme do início ao fim, que usa uma câmera de mão e um design de produção precários para ilustrar a vida que Anderson (Anderson Tikuna) leva ao lado da irmã e da sobrinha. A casa onde o trio vive, com chão de barro, nenhuma decoração e uma rede que serve de cama é só o primeiro elemento que mostra como a vida do protagonista está vazia e sem personalidade. Após experimentar em primeira mão as atrocidades cometidas por sua velha tribo indígena contra as crianças, Anderson decidiu viver longe deles, mas provavelmente não esperava que a sua libertação o levaria a uma jornada pela busca de sua identidade.

Imagem do filme Antes o Tempo Não Acabava , que mostra três crianças de descendência indígena com artefatos e pinturas tribais.

O tema principal do drama é muito bem trabalhado pelo roteiro de Sergio Andrade e Fábio Baldo. À medida que o filme progride, fica claro que Anderson está lidando com várias crises de identidade ao mesmo tempo: ele não consegue se desligar totalmente da tribo que abandonou, não consegue se apegar a nenhum de seus empregos, busca documentos que o fariam ser aceito pelos brancos (que exterminaram a cultura indígena) e, além de tudo isso, ainda está em fase de descoberta da sua sexualidade e da sua identidade de gênero. O excesso de temas tem tudo para deixar a narrativa caótica, mas a dupla de diretores segue à risca a principal regra do cinema: mostre, não conte.

Antes o Tempo Não Acabava | Prêmios merecidos

Todas as crises de identidade vividas por Anderson são mostradas sem que ele precise falar uma palavra sobre isso. Andrade e Baldo são hábeis ao mostrar a rotina mecânica e sem emoção na fábrica onde o protagonista trabalha; depois ao encontrar o anúncio para trabalhar como cabeleireiro e começar uma rotina no local – e é curioso como o salão, mesmo que tão precário quanto o restante dos cenários, seja um dos poucos com alguma cor para representar alguma esperança para a perspectiva da personagem. De forma similar, a camada do conflito que diz respeito à identidade de gênero de Anderson é tratada em uma longa cena em que ele aos poucos vai se transformando em uma figura mais feminina e faz um uso do batom que mais tarde se revela como uma pequena transgressão que enriquece seu conflito com os índios, que ainda acreditam poder controlá-lo.

Outro grande mérito da fotografia de Antes o Tempo Não Acabava é não romantizar a situação de Anderson – e daqueles ao seu redor – nem por um segundo. O cinza e os tons dessaturados mostram a pouca esperança existente na vida da periferia em Manaus. O amadorismo calculado da direção não só faz o espectador se sentir no meio daquelas situações como também sugere que aquele seria o resultado das filmagens caso o protagonista decidisse usar o celular para documentar seu próprio dia a dia.

Imagem do filme Antes o Tempo Não Acabava , que mostra um homem de descendência indígena tomando banho em um banheiro extremamente pobre.

Embora o filme acerte em cheio ao acompanhar os conflitos silenciosos de Anderson, o mesmo não pode ser dito dos demais personagens. O foco é quase todo nele, é claro, mas o pouco espaço que há para as figuras secundárias acaba sendo mal aproveitado. A irmã de Anderson entra e sai de cena sem relevância, mesmo que protagonize o que era para ser a cena mais intensa do filme. O erro tanto com ela quanto com outra personagem que tem o destino trágico é que não passamos tempo quase nenhum com as duas. Isso elimina o potencial dramático das poucas cenas que protagonizam, pelo simples fato de que não as conhecemos, e não fazemos ideia do arco que seguem. A morte de determinada personagem, embora ilustre como uma vida precária pode rapidamente se converter em efêmera, é atrapalhada pelo fato de que não há nenhum indício de que a saúde da personagem em questão está abalada. A passagem se torna especialmente ineficaz em uma cena de enterro em que a atriz não tem muita habilidade para se fingir de morta, o que evidencia as limitações da aposta no amadorismo.

Por outro lado, a economia de cenas com coadjuvantes acaba servindo para ilustrar como Anderson acaba afastando a todos que tentam se aproximar – às vezes por medo, às vezes por experiências anteriores –, tendência que fica mais evidente quando ele tem contato com uma integrante de ONG e expõe algumas de suas razões para falta de confiança.

Por fim, Antes o Tempo Não Acabava também consegue fazer uma metáfora sobre algumas das hipocrisias e falácias religiosas que, mesmo em um contexto diferente, estimulam adultos a cometerem diversas crueldades contra crianças. Afinal, o que é um ritual de submeter menores de 11 anos a picadas de formigas de fogo senão o equivalente físico de ensinar as crianças a cantarem “quem pecar vai pagar/quem pecar vai morrer“? Como se não fosse o bastante, um certo personagem tenta “curar” Anderson de suas tendências homossexuais e diz que ele mesmo se curou – ao mesmo tempo que se mostra incapaz de manter suas mãos longe do corpo do jovem. Incluir a religião num filme sobre a busca da identidade pode até parecer um ponto fora da curva, mas se certas doutrinas estimulam os jovens a odiarem a forma como veem a si mesmos e acreditarem que amar outra pessoa independente do gênero garante uma pós-vida de tortura, isso definitivamente configura um dos primeiros episódios da nossa perda de identidade.

O que aprendemos com Antes o Tempo Não Acabava? O estilo amador pode ajudar a contar sua história, mas não deve ditar todos os aspectos do filme.

Dever de casa: Assistir à Boi Neon para rotinas diferentes do comum, Corpo Elétrico para rotina e identidade de gênero e O Abraço da Serpente para vislumbrar um pouco mais sobre a forma como os brancos exterminaram a cultura indígena.

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Crítico de cinema, engenheiro de projetores, manipulador da luz, entusiasta de séries de TV, devorador de livros. Um membro da Falange.