Falange Resenha | Annabelle 2: A Criação do Mal

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Mãe SerpenteJames Wan foi extremamente feliz quando deu início à franquia de Invocação do Mal (The Conjuring, 2013). Não só o filme ganha um terceiro volume no próximo ano, como seu primeiro spin-off, Annabelle (2014) já tem uma continuação que chegou essa semana aos cinemas. Annabelle 2: A Criação do Mal (Annabelle: Creation) segue uma linha de roteiro que já é característica à franquia, e a adição de um diretor experiente do horror como David F. Sandberg dá um tratamento especial à qualidade técnica do filme. O resultado é uma sequência melhor que o filme original, apesar de óbvios problemas de roteiro tão comuns ao gênero do terror.

Spin-off que deu certo

Em 2013, Invocação do Mal conseguiu um feito digno de nota: cair no gosto de público e crítica com o uso de clichês. A trama do filme segue um casal de exorcista da Igreja, que tenta livrar uma família da presença demoníaca em sua casa. Todos os elementos clássicos desse tipo de filme estão lá. A estória foi baseada nos diários reais de agentes da Igreja, e isso ajuda a dar credibilidade à narrativa. Além disso, o demônio é uma figura poderosa a ser explorada, justamente porque é um inimigo real para todos os seguidores do cristianismo, religião mais significativa no ocidente. Ao invés de viradas mirabolantes de roteiro, e a tentativa de criar algo inteiramente novo, a franquia garantiu seu sucesso ao apostar justamente no lugar comum. O esforço coletivo da equipe do filme, então, caminhou para áreas muitas vezes ignoradas por filmes de terror, como elenco, fotografia, montagem e direção de câmera.

Os atores escolhidos para representar as personagens de Invocação do Mal são extremamente competentes, e tornam as situações críveis. James Wan, que dirigiu e roteirizou o primeiro Jogos Mortais (Saw, 2004), também foi uma escolha mais do que acertada para guiar o projeto. Cortes de câmera criativos, pouco uso de efeitos visuais digitais, um boa edição de som. Invocação do Mal mostrou como, à vezes, o clichê pode funcionar para assustar o público, desde que seja produzido com o devido cuidado. O sucesso do filme foi tão grande que no ano seguinte a seu lançamento um spin-off já tinha sido criado. Annabelle ganhou um filme próprio depois de fazer uma pequena ponta no filme de Wan, como um dos casos passados do casal protagonista.

Annabelle 2, então, é a continuação de um spin-off. E se a indústria de terror é capaz de alguma coisa melhor do que qualquer outro gênero é estragar completamente uma franquia com continuações desnecessário. Jogos Mortais, já que citamos, é um ótimo exemplo. Annabelle 2, no entanto, funciona. Tão bem quanto o restante da franquia. E isso já é algo digno de nota, considerando a limitação narrativa da personagem. Se no primeiro filme de Annabelle já tivemos uma explicação quanto à origem da boneca maldita, Annabelle 2 funciona como uma prequela da prequela, completando lacunas que o público nem mesmo sabia que existiam. Ainda bem que a estória é o menor dos focos do filme. E mais uma vez a simplicidade se coloca a favor da franquia.

Imagem do filme Annabelle 2 A Criação do Mal, do universo de Invocação do Mal (The Conjuring) que mostra uma boneca com a cabeça quebrada caída em uma estrada
Sandberg é sensível o suficiente para dar impacto à morte com apenas uma boneca quebrada, no início no filme, ao invés de precisar apelar para corpos e sangue explícitos. Esse tipo de escolha é o que faz de Sandberg uma escolha perfeita como diretor de terror.

Annabelle 2: A Produção do Mal

O primeiro acerto de Annabelle 2 é, sem dúvida, colocar David F. Sandberg na direção do filme. Sandberg é um gênio do horror, que começou a fazer sucesso ao produzir curta metragens melhores do que a maior parte dos longas do mercado. Sandberg escreveu e dirigiu o curta Lights Out (2013), que deu origem a Quando as Luzes se Apagam (Lights Out, 2016). Quando as Luzes se Apagam sofre muito por seu roteiro, mas o que garantiu o sucesso do filme foi seu diretor. Acostumado com baixo orçamento, Sandberg desenvolveu uma assinatura própria com a câmera. O diretor brinca, o tempo todo, com a expectativa do espectador. Sua câmera foca e desfoca de locais escuros, gira de forma suspeita, se apropria de planos-sequência. Tudo para criar tensão a partir daquilo que fica do lado de fora do enquadramento.

Mesmo que o desconhecido não seja o tema principal de Annabelle 2, jogar com o olhar do público é uma escolha criativa de Sandberg, com as mesmas ferramentas que desenvolveu na sua promissora carreira de curtas. A montagem final do filme, e sua edição de som, também foram realizadas com minúcia, e contribuem para construir o medo do filme. E se todo o elenco é competente, é preciso destacar a performance de Talitha Bateman, no papel de Janice. Com apenas 14 anos na época de gravação do filme, a atriz conseguiu dar vida à personagem mais complexa da trama. Uma escolha ousada de roteiro, já que crianças e adolescentes usualmente são escolhidos apenas para seguir na estória, e não para surpreender. É claro que exceções existem, como Linda Blair em O Exorcista (The Exorcist, 1973).

Imagem do filme Annabelle 2 A Criação do Mal, do universo de Invocação do Mal (The Conjuring) que mostra uma boneca com a cabeça quebrada caída em uma estrada, em que Janice (Talitha Bateman), sentada em uma cadeira de rodas, conversa com Irmã Charlotte (Stephanie Sigman).
À esquerda, Janice (Talitha Bateman). À direita, Irmã Charlotte (Stephanie Sigman).

Tudo contribui, então, para que o público realmente tenha medo. E, assim, esqueça de notar as falhas de Annabelle 2. Ao contrário de outros filmes da franquia, não existe uma preocupação tão grande do roteiro quanto à verosimilhança da reação das personagens. Apesar de ataques e aparições constantes da entidade demoníaca, o grupo de órfãs que compõe o filme permanece disposto a explorar por conta própria a casa que serve de cenário para a trama. São investidas constantes em situações desnecessariamente perigosas, mesmo depois da confirmação de que uma forma satânica assombra o lugar. A síndrome de personagem imbecil, tão dispensável no horror, é o que move a narrativa de Annabelle 2, infelizmente. Talvez a crença do roteiro é de que crianças são seres naturalmente incapazes de lidar com situações complexas. Mas a própria atuação de Talitha Bateman, e também a de todo o elenco jovem, já serve para derrubar essa tese.

Em resumo, Annabelle 2: A Criação do Mal é uma ótima adição à franquia de Invocação do Mal. No entanto, suas falhas de roteiro mostram que a franquia precisa estar mais atenta a seu futuro. Principalmente com um terceiro filme a caminho, bem como um novo spin-off da Freira (que ganhou easter-egg em Annabelle 2). O clichê ajudou muito no estabelecimento da série de filmes, mas somente quando associado à excelência técnica e à verosimilhança. E esse último aspecto não está tão presente em Annabelle 2.