Falange Resenha | Além da Morte

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Vinheta da Mãe Serpente
Um remake de um bom filme tem a difícil tarefa de atualizar a narrativa para outra geração sem perder aquilo que tornou o original tão querido. Já o remake de um filme com muitos problemas, como foi Linha Mortal (Flatliners, 1990), precisa aproveitar a oportunidade e consertar seus erros. Além da Morte (Flatliners), no entanto, não consegue superar sua própria mediocridade. Em primeiro lugar porque a ênfase no cientificismo é maior agora do que no filme de 1990, o que torna o roteiro vago ainda mais decepcionante. E se Linha Mortal pode alcançar o patamar de um clássico cult, isso ocorreu em grande parte devido a um elenco de grandes nomes, como Julia Roberts e Kevin Bacon. Já Além da Morte falha na condução de seus atores, que de forma geral são tão genéricos quanto a estória que interpretam.

Os flatliners

Além da Morte, assim como Linha Mortal, segue um grupo de jovens estudantes determinados a documentar, cientificamente, o que acontece quando o coração de alguém para de bater. A hipótese do grupo é que o cérebro não é apenas mais um órgão, e que a consciência continua a navegar para outros lugares quando deixa o corpo. Para provar que está certa, Coutney (Ellen Page) convence quatro de seus colegas de residência a se envolver em um perigoso experimento: parar seu coração enquanto uma tomografia captura os detalhes de suas sinapses nervosas após a morte.

O conceito é extremamente interessante, e abre espaço tanto para discussões ligadas à ficção científica, quanto para acontecimentos ligados ao horror. Um por um, o grupo de jovens médicos passa pelo mesmo experimento, e ao serem ressuscitados descobrem habilidades incríveis, como energia e determinação sobrehumanas, ou memória fotográfica. Um por um, os jovens médicos também começam a serem perseguidos por visões enigmáticas de erros de seu passado, que colocam sua vida em risco.

A primeira meia hora do filme captura toda a potência do conceito na forma de promessas. Ao passarem por suas experiências, os flatliners, literalmente aqueles que estão perto da morte, começam a se questionar sobre os limites e efeitos do procedimento. Por que as habilidades adquiridas por cada um deles são diferentes? O que exatamente as visões do outro lado representam? O que determina a forma que os flatliners são perseguidos? As perguntas instigam, pois são feitas por mulheres e homens da ciência, que, teoricamente, estariam preparados para ao menos tentar descobrir respostas. Não é o que acontece.

Cena do filme Além da Morte, ou Flatliners, remake do filme cult Linha Mortal. A cena mostra uma jovem, interpretada por Ellen Page, sendo arrastada para um quarto escuro.
Os problemas de Além da Morte são causado, em grande parte, pela sua proposta de ser simultaneamente um horror, um drama e uma ficção científica. E não conseguir ser nenhum de forma adequada.

Além da morte, além da lógica

Começa com a ciência, termina com o esoterismo. E pessoas racionais aos poucos escorregam para estereótipos do horror. Mesmo depois de determinar que as visões são perigosas, o mesmo conjunto de pessoas que propõe colocar a vida em risco em nome da ciência passa a priorizar caminhadas solitárias por necrotérios desertos. E quando a gravidade das visões aumenta, é hora de abandonar toda a razão e apostar em uma jornada de autodescoberta recheada de clichês espirituais de culpa e perdão.

Se essa virada já era um problema de roteiro em Linha Mortal, é imperdoável em Além da Morte. Depois de dezessete anos, Peter Filard mostra a incapacidade de rever de forma crítica seu próprio trabalho de roteirista, e nem mesmo a entrada de outro escritor, Ben Ripley, ajudou o remake. Joel Schumacher também era um diretor mais competente em 1990 do que Niels Arden Oplev mostra ser nesse momento. Prova disso é que mesmo a presença de uma atriz de peso como Ellen Page não garante uma performance satisfatória do elenco. Com pouco destaque de Diego Luna, como Ray, e James Norton, como Jamie, os atores ficam perdidos dentro de personagens sem direção consciente, sujeitos a mudanças de humor e atitude pouco convincentes.

Cena do filme Além da Morte, ou Flatliners, remake do filme cult Linha Mortal. A cena mostra uma jovem descalça em frente a um cadáver coberto por um lençol branco.
Raramente o filme consegue criar o clima de suspense que pretende, indeciso entre o horror, o drama e a ficção científica. Mais uma série de promessas vazias.

O avanço das tecnologias de produção cinematográfica prejudica também o novo filme em relação ao original. Isso porque quanto mais impressionante e realista é a reprodução do hospital, com toda sua aparelhagem e termos técnicos, mais a falta de uma abordagem racional do problema decepciona. Os próprios efeitos especiais são funcionais, mas insuficientes para prender a atenção de um público geral, já que não houve o trabalho de planejamento e criação de uma identidade visual consistente e original.

Sem ser necessariamente ruim, Além da Morte não traz nenhuma inovação para o cinema, e se contenta em ser uma versão menos satisfatória de um filme com vinte e sete anos de idade. Além da Morte pode servir de interesse descompromissado para fãs do cenário de além vida. Mas definitivamente não vale o preço salgado de um ingresso de cinema. Nem toda tentativa de ressuscitação dá certo.