Falange Resenha | A Vilã (The Villainess)

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Vinheta do Professor LumièreOlá, queridas e queridos membros da Falange! Aqui quem fala é o Professor Lumière, seu correspondente de cinema do QG. Hoje vou falar sobre A Vilã (Ak-Nyeo, 2017), thriller coreano que foi exibido no Festival de Cinema do Rio de Janeiro e recebeu quatro minutos de aplausos de pé dos espectadores em Cannes, em maio deste ano. A trama acompanha uma assassina profissional que não deixa nada interromper seu plano de vingança. Assista ao trailer abaixo:

A primeira sequência de A Vilã será muito bem recebida por aqueles que assistiram Hardcore: Missão Extrema (Hardcore Henry, 2015) ou Doom: A Porta do Inferno (Doom, 2005). Num elaborado plano no melhor estilo uma versus cem, somos forçados a assumir o ponto de vista de Sook-hee (Ok-bin Kim) enquanto ela arrebenta diversos capangas em um corredor. A ótima cena de ação já dá o tom “pé na porta, tapa na cara” do filme – às vezes literalmente – mas também traz uma preocupação: se o diretor Byung-gil Jung começou o filme com o que certamente é uma das melhores cenas do ano, será que tem como manter o nível pelas quase duas horas seguintes?

E como tem. Inclusive, é curioso pensar na primeira sequência e lembrar de um momento específico em que um espelho é mostrado e o espectador fica confuso por uns milésimos de segundo até entender exatamente o que está vendo ali. Essa cena traduz perfeitamente  as intenções do filme todo: você não vai entender tudo imediatamente, mas logo, logo as cenas vão fazer sentido. E não importa que Jung tenha colocado a melhor sequência logo no começo, pois ele claramente sabia que seu filme tinha muito mais a oferecer a seguir.

A Vilã | Filha de Tarantino com Chan-wook Park

Sim, porque A Vilã é uma curiosa mistura de Kill Bill (2003) com A Criada (Ah-ga-ssi, 2016) – dois dos meus filmes preferidos de todos os tempos – e se você assistiu aos dois, consegue imaginar o ritmo e os elementos da história. Caso não tenha visto, além de ter muito dever de casa, você só precisa saber que tudo que eu posso revelar é que nada é o que parece e as reviravoltas surgem a todo o momento – mesmo – e algumas delas você pode perder se piscar.

E, caso você pisque, Byung-gil Jung não está nem um pouco interessado em voltar atrás para explicar o que aconteceu ou mastigar informações para você. Isso é um grande mérito que (infelizmente) pode afastar uma parcela do público. Como a tendência de grande parte dos filmes de ação hollywoodianos é evitar a complexidade e depender de diálogos expositivos para que o público não se perca, o cinema coreano já se mostra anos-luz à frente do ocidental e ano após ano evidencia que ainda temos muito o que aprender com eles em matéria de narrativa, ritmo e confiança na inteligência do público.

Imagem de A Vilã mostra Sook-hee agachada durante um combate
Ótimas cenas de ação não são o único destaque do filme

Esse ritmo inclusive me fez duvidar de até onde Jung seria capaz de ir para contar sua história. A cena inicial de fato é a melhor do filme, mas isso não significa que outras sequências não rivalizem com ela. Em determinado momento da projeção, os acontecimentos sugerem que a próxima parte da ação acontecerá com os personagens em cima de motos em movimento. Uma sequência dessas tem tudo para dar errado, e eu já estava me preparando para o que (na minha cabeça) seria um demérito do filme. Mas Jung sabe muito bem o que faz, e a sequência é tão eletrizante quanto a primeira, com alguns movimentos de câmera insanos que, mesmo ajudados com um CGI perceptível, ainda são bastante eficientes.

A passagem de tempo também é outro elemento que vai deixar os espectadores mais desatentos confusos. Jung vai e volta no tempo, dá diversos saltos temporais em segundos e, às vezes, dá dicas mínimas na cena para mostrar que algum tempo passou. Às vezes, a mudança no tamanho do cabelo de Sook-hee ajuda a perceber a alteração, mas outras vezes os saltos temporais são no mesmo estilo piscou-perdeu das reviravoltas.

Tudo se torna ainda mais caótico (no melhor dos sentidos) quando Jung inclui elementos que parecem não fazer o menor sentido nas sequências, o que causa aquela sensação de estranhamento já mencionada, mas que é sempre esclarecida. Em certo momento, por exemplo, Sook-hee tenta fugir de um confinamento e se depara com cenários que nem ela nem o espectador espera ver. Isso serve tanto para ilustrar o desnorteamento dela quanto as intenções das pessoas que construíram o lugar onde ela está e, aos poucos, a posição das peças na trama vão ficando cada vez mais claras – umas imediatamente, outras apenas a longo prazo.

Imagem de A Vilã mostra Sook-hee prestes a quebrar a vidraça de um ônibus
Sook-hee é pragmática, destemida e descobrir sua história aos poucos é uma ótima experiência.

No meio de todo esse caos maravilhoso de cenas de ação, idas e vindas na linha do tempo e reviravoltas surpreendentes, é difícil crer que sobra espaço para desenvolvimento de personagens, mas Jung acerta nisso também. Sook-hee é pragmática e sabe exatamente o que quer. A protagonista tem um plano específico formado em sua cabeça, mas também sabe se adaptar às circunstâncias à medida que os obstáculos surgem em seus caminhos. Seria bastante fácil resumi-la a uma máquina de matar unidimensional, mas alguns elementos da trama surgem em pontos estratégicos para aos poucos remover as camadas grossas e revelar detalhes importantes da formação de sua personalidade. Entregar que elementos são esses estragariam a experiência de descobrir e se surpreender com a história de Sook-hee, mas basta dizer que estão ligados à sua infância, seu futuro e à forma como as pessoas mais próximas dela se relacionam.

Ao final da projeção, me dei conta de que A Vilã me causou duas sensações que são as que mais gosto quando vejo um filme: primeiro, a imprevisibilidade do roteiro que não dá ao espectador dica nenhuma sobre a direção que a narrativa está seguindo (ser surpreendido duas ou três vezes já seria o suficiente, mas o thriller traz mais de 50 surpresas espalhadas por todo canto); depois, aquela sensação gostosa de sair da sala de cinema ansioso para voltar e conferir o filme mais uma vez. Não só para acompanhar melhor os twists mas também para apreciar esse trabalho que definitivamente é um dos melhores do ano.

O que aprendemos com A Vilã? Todos precisamos adicionar mais filmes coreanos às nossas listas.

Lição de casa: (re)assistir Kill Bill, A Criada e Hardcore: Missão Extrema.