Falange Resenha | A Torre Negra

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Mãe SerpenteA série de livros A Torre Negra, de Stephen King, nasceu para ser adaptada. Isso porque as mais de quatro mil páginas do material original seguem uma norma que é importante para a literatura, mas essencial para o cinema: mostre, não conte. Cada capítulo da saga de Roland Deschain envolve inúmeras referências à cultura pop e ao nosso mundo, e a escrita característica de King é extremamente cinematográfica. E se você pretende misturar os cenários de futuros apocalíticos, múltiplas dimensões, forças cósmicas, magia e viagens temporais, é uma excelente notícia que sua obra saiba conduzir a narrativa de forma coesa. O filme A Torre Negra, no entanto, não aprendeu absolutamente nada com o material original. O pessimismo de ontem da Mãe se provou mais do que fundamentado: o resultado é pior do que o esperado.

Exposição, o primo pobre do bom cinema

Um universo fantástico tem uma grande barreira a ultrapassar para conquistar o público: a verossimilhança. Por mais que os elementos que compõem determinado universo pareçam distantes da realidade, é preciso convencer o espectador, ou o leitor, de que existe uma ordem determinada para cada coisa. Isso é ainda mais importante quando, ao invés de uma realidade completamente nova, se decide utilizar elementos reais na construção da fantasia. É vital para a verossimilhança dar atenção aos detalhes. E a sutileza é uma ferramenta mais eficaz que a exposição bruta.

Stephen King entende isso. Entende isso tão bem que é capaz de escrever centenas de páginas sobre um palhaço que mora nos esgotos de forma realista, e com isso instigar o medo em seus leitores. E no caso de A Torre Negra, consegue tornar os eventos da História humana em parte de uma realidade maior, com múltiplas dimensões, e forças ocultas que querem destruir a existência em si. Já o filme… Bem, o filme não consegue perder dez minutos sem que alguém explique um dos elementos fantásticos que forem introduzidos de forma aleatória.

Existe uma Torre no centro da realidade que protege a existência em si? Isso será resumido em um diálogo direto. Existe um plano maligno para derrubar a Torre? Isso também será resumido em um diálogo. Mas, espere, o que são os poderes de uma determinada personagem? Não se preocupe, existe um diálogo especialmente escrito para mastigar a informação.

Cena do filme A Torre Negra, baseado nos livros The Dark Tower de Stephen King. A cena mostra a Torre, de onde saem doze feixes de luz simétricos.
Alguém vai dizer exatamente o que é a Torre, e exatamente o que são os Raios. Em poucos segundos. Para sobrar tempo de explicar outra coisa de forma superficial.

Não se trata apenas de uma adaptação ofensiva a uma obra tão rica e cheia de nuances. A Torre Negra é um filme ruim porque seu roteiro trata o espectador como uma ameba, incapaz de compreender qualquer coisa que não seja explicada palavra por palavra. E, além disso, introduz todos os elementos do universo fantástico de Stephen King sem nenhum coesão narrativa. O resultado final é monótono, arrastado, e cheio de furos de roteiro.

Fantasia e representação

O potencial criativo da fantasia não está em jogar monstros e seres superpoderosos na tela sem qualquer critério. A fantasia é extremamente importante para a cultura pop não só porque a realidade não é suficiente. Mas porque bons universos fantásticos são ferramentas para compreender a própria realidade. A Torre Negra é uma saga sobre vingança, sacrifício, companheirismo. Sobre um destino maior que qualquer vida, e como lidar com o vazio da existência. É uma saga que impactou a literatura e se tornou um sucesso por ultrapassar, com enorme sucesso, a casca vazia que elementos fantásticos podem criar se não forem bem conduzidos. Uma casca vazia como é o filme de A Torre Negra.

Em apenas uma hora e meia somos apresentados para um garoto com habilidades psíquicas, o último Pistoleiro de uma linhagem sagrada, uma Torre que controla a existência, ferramentas tecnológicas extremamente avançadas capazes de criar portais entre dimensões, vampiros, demônios, e um mago com superpoderes. E então o filme acaba. Nada verdadeiramente emocionante acontece, o crescimento das personagens é previsível, e as atitudes mudam de um momento para o outro sem qualquer explicação.

O elenco tem nomes de peso, como Idris Elba no papel do Pistoleiro Roland Deschain, e Matthew McConaughey como o Homem de Preto. Mesmo o novato Tom Taylor dá o melhor de si para viver Jake Chambers. Todo esforço é inútil se o roteiro produz um vilão cujas motivações são explicadas, por exposição, como “dominar o universo”. E os Pistoleiros? Bem, eles devem “proteger o universo”. Com a profundidade de um pires, o papel designado para cada personagem cai em clichês de bem e mal. Isso é especialmente irritante para leitores da obra original, que sabem o quanto a complexidade da trama foi reduzida a uma representação genérica de um mundo fantástico.

Cena do filme A Torre Negra, baseado nos livros The Dark Tower de Stephen King. Na cena, Roland Deschain, interpretado por Idris Elba, está olhando para Walter, o Homem de Preto, interpretado por Matthew McConaughey.
O confronto épico entre o último Pistoleiro e o Homem de Preto poderia ter, literalmente, quaisquer outros personagens envolvidos. O roteiro de ‘A Torre Negra’ não desenvolve suficientemente nenhum dos dois, e ambos acabam apenas como uma personificação genérica do “bem” e do “mal”

Pior, A Torre Negra está cheio de referências que só podem ser compreendidas por quem leu os livros. Um desrespeito gigante para o espectador, já que um filme precisa ser suficiente por si próprio. Assim, pichações em ode ao Rei Rubro são foco de cenas que nunca serão retomadas. E a presença de vampiros pode passar despercebida, caso não se leia os créditos, onde diversos personagens estão listados como “vampiro 1”  ou “vampiro 2”. Se a compressão de uma série de livros em um único filme já é nociva, fica ainda mais difícil entender porque a montagem final tem apenas 90 minutos. Até mesmo porque faltou espaço para que A Torre Negra impressionasse mesmo em sua parte técnica.

A parte técnica de A Torre Negra

É difícil de acreditar que um filme capaz de produzir o melhor pôster de 2017 seja tão insignificante visualmente. A necessidade de passar apressado pelos cenários diferentes torna cada ponto desinteressante. Não há tempo suficiente para construir detalhes. E sem a apreciação do visual, o filme certamente irá perder boa parte de seu apelo comercial. É ainda mais decepcionante, em um pretenso blockbuster, descobrir que todas as cenas de ação já estão no trailer. Todas. Sim, se você viu o trailer já sabe de toda a ação que ocorre na trama. Pior. A montagem das cenas de ação no trailer é menos confusa do que nas cenas finais do filme.

Pôster de A Torre Negra, ou The Dark Tower, filme baseado na obra de Stephen King. No pôster, o espaço entre os prédios de Nova Iorque faz com que o céu forme o contorno de uma torre.
Você olha um cartaz como esse e espera efeitos visuais pelo menos do nível de ‘Doutor Estranho’ (Doctor Strange, 2016). Não espere.

A Torre Negra poderia ser uma adaptação falha, com roteiro fraco e personagens mal desenvolvidas. Mas que pelo menos tivesse uma fotografia impressionante e uma edição de imagem impecável. Como a versão hollywoodiana de A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (Ghost in the Shell, 2017). Mas as poucas cenas em que o filme pode impressionar são ofuscadas pelo andamento lento, pelo excesso de exposição e por uma direção confusa e cheia de cortes estranhos nos combates. Acreditando que meia dúzia de elementos místicos é suficiente para sustentar o gênero da fantasia, A Torre Negra mira no épico, e acaba por acertar o medíocre.

Mas a roda de Ka estão sempre girando, e quem sabe um Ka-tet mais capaz posso um dia nos dar uma adaptação mais digna. Ou pelo menos um filme decente.