Falange Resenha | A Pele que Habito (La Piel que Habito)

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Vinheta da Mãe SerpenteQuem conhece o diretor Pedro Almodóvar pode estranhar ver um de seus filmes em um especial de Mês das Bruxas. Isso porque o diretor espanhol costuma produzir filmes dramáticos. Cheios de violência, muitas vezes, mas nunca fora de um mesmo gênero cinematográfico. No entanto, A Pele que Habito, La Piel que Habito, no original, merece um lugar nessa lista principalmente por seguir uma tradição antiga do horror. Uma tradição que marca também o início da ficção científica. A tradição do cientista louco.

O Cientista Louco

Normalmente motivado por um grande trauma pessoal, um gênio da ciência ou da medicina passa a dedicar sua vida em nome de uma descoberta revolucionária. O problema é que tudo o que importa para esse indivíduo são os fins; os meios de alcançar seu objetivo são apenas obstáculos no meio do caminho. O cientista louco, então, é capaz de cometer atos grotescos e ilegais, tudo em nome de uma causa que ele considera nobre, dentro de seu código moral. É a partir desse conceito que surgiram clássico como Re-Animator (1985), ou, mais recentemente, A Centopeia Humana (The Human Centipede, 2009). A origem de tudo, no entanto, é um livro de 1818, escrito por uma mulher chamada Mary Shelley: Frankenstein.

A importância de Frankenstein para a cultura pop moderna não pode ser medidas em palavras. Esse é o livro que criou todo o gênero da ficção científica, e que iria inspirar grandes nomes do horror, como H. P. Lovecraft. E Mary Shelley tinha apenas 18 anos quando começou a criar uma das estórias mais clássicas do mundo, independente do gênero.

É a partir desse arquétipo que o Almodóvar decidiu criar seu primeiro filme de horror: A Pele que Habito. Um filme que também foi inspirado pelo romance francês Mygale, de Thierry Jonquet. Na trama do longa, somos rapidamente apresentados a Roberto, um cirurgião renomado que mantém aprisionada em sua casa uma jovem mulher chamada Vera, uma cobaia para seus experimentos da criação de uma pele humana mais resistente. O objetivo de Roberto é tornar humanos a prova de fogo e outras feridas, depois que sua já falecida mulher foi consumida por um incêndio num acidente de carro. Se aprisionar um outro humano contra sua vontade e fazer experimentos ilegais não for o suficiente para aguçar sua curiosidade, não se preocupe, A Pele que Habito tem muito mais a oferecer.

Imagem do filme A Pele que Habito, ou La Piel que Habito, ou ainda The Skin I Live In. A imagem mostra um cirurgião trabalhando em um molde humano.
O filme espanhol também tem um forte apelo visual, ao reproduzir detalhes de cirurgias, sem, contudo, apelar para a violência explícita.

A Pele que Habito

É fácil convencer os amantes de médicos psicopatas a assistir A Pele que Habito. Conforme o filme perde sua linearidade, e somos transportados para o passado, é possível descobrir cada vez mais detalhes sobre Roberto, e sua grotesca obsessão com a perfeição do corpo. Não é possível revelar muito sobre o roteiro sem estragar as principais surpresas do filme. Saiba apenas que o passado de Roberto traz revelações grotescas sobre a personagem, e mostra situações chocantes, a que o espectador é incapaz de permanecer indiferente.

Mesmo para quem não é fã do gênero de terror, é possível encarar A Pele Que Habito como um drama. Capaz mesmo de suscitar reflexões filosóficas. Ao trabalhar com a manipulação da carne, Roberto abre espaço também para uma discussão profunda sobre a identidade. Se o corpo que te pertence é modificado tantas vezes por cirurgias invasivas, o quanto de seu ser permanece o mesmo? O que caracteriza a identidade de alguém, se não seu corpo? O que é uma pessoas, e como ser uma pessoa pode mudar com a manipulação da aparência? Essas discussões são o motivo principal para que A Pele que Habito tenha sido um dos filmes mais discutidos de 2011. E ainda há muito o que pensar sobre o filme.

Imagem do filme A Pele que Habito, ou La Piel que Habito, ou ainda The Skin I Live In. A imagem mostra pequenos modelos de cabe;as humanas, recobertos de bandagens.
A constituição do próprio corpo humano entra em discussão em ‘A Pele que Habito’, que chega mesmo a tratar da questão da manipulação genética.

Por fim, vale lembrar que este é um filme de Almodóvar. E assim como no resto de sua carreira, o diretor valoriza o uso de cores fortes que se destacam no cenário, principalmente o vermelho, presente em quase todas as cenas. Há ainda uma preocupação com o uso intimista da câmera, que não hesita em focar detalhes de ambiente e personagens, na tentativa de aproximar o espectador da narrativa. O aspecto mais polêmico de Almodóvar, a forma crua de mostrar a violência contra mulheres, também pode ser encontrada em A Pele que Habito, e isso vale um aviso para pessoas mais sensíveis ao tema.