Falange Resenha | A Glória e a Graça

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náusea vinheta

Minha Camaradagem!

O assunto é cinema nacional, tolerância, preconceito e diferenças. E lá fomos eu, Nauseão da massa, e minha parça Bastille para conferir A Glória e a Graça, estrelando Carolina Ferraz. Dessa vez, logo após a sessão, rolou uma bandeja de salgadinhos grátis uma entrevista coletiva, onde pudemos trocar uma ideia com a própria Carolina, além do diretor Flávio R. Tambellini e as atrizes Sandra Corveloni e Carol Marra.

E o filme?

Calma. Lê a sinopse primeiro:

O filme conta a história de Glória (Carolina Ferraz), travesti bem sucedida e feliz com suas conquistas mas que vive distante de Graça (Sandra Corveloni), sua irmã. Quando Graça descobre uma doença terminal, as duas vão tentar aproximar as famílias para restabelecer as relações entre os primos.

A Glória e a Graça

Beleza

O filme está lutando pra sair do papel há mais de dez anos, desde 2005, muito por conta da resistência de patrocinadores, que não queriam se associar a um filme onde a protagonista é uma travesti. De lá pra cá, pouca coisa mudou no que diz respeito à questões de visibilidade, aceitação e quebra de preconceitos em geral, mas esse pouco que mudou já foi o bastante pra que o filme ganhasse as telas, inclusive com o apoio da chapa branquíssima da Globo Filmes, pasmem os senhores.

Dito isto, vamos ao filme

O diretor optou por uma fotografia bastante fora do comum, com muitos efeitos de luzes coloridas completamente fora da normalidade, além dos cômodos da casa da Graça, que pareciam mais um tratamento de cromoterapia. Eu estranhei pra caralho isso aí e cheguei a pensar que era de fato cromoterapia, já que Graça é cheia de esoterismos. Mas aí, já durante a coletiva, foi dito que a ideia era dar um tratamento menos formal às cenas, pra que não ficassem muito dramáticas.

Não, não funcionou. Foi mal.

Roteiro

Olha, a história em si é bem simples, o que a princípio já é uma bola dentro, porque a possibilidade de furos é menor. Você tem um reencontro de duas irmãs, depois de quinze anos, por conta de uma doença terminal. Além disso, o choque entre quase opostos: Glória é viajada, fala quatro idiomas, é independente e bem resolvida, enquanto Graça leva uma vidinha normal de classe média. Quer dizer, já vi alguns filmes com um argumento parecido e que deram muito certo.

O problema é que a história patina demais, deixa pontas soltas e acaba fazendo com que os personagens se contradigam em alguns momentos. Mini spoiler aqui: Graça resolve procurar a irmã depois de dizer ao médico que não tem ninguém a quem recorrer. Duas cenas depois ficamos sabendo que Graça tem uma vizinha que, segundo ela mesma, “sempre toma conta das crianças e é quase uma irmã”. Complicado.

Outra coisa que me incomodou bastante foi o fato do Rio de Janeiro, cenário da história, ser quase disfarçado no filme. Só temos planos fechados, o que não dá margem a reconhecer quase nenhuma paisagem, o que me leva a perguntar o porquê da cidade ser citada, já que o filme poderia se passar em qualquer lugar do mundo que não faria diferença alguma.

Falando das crianças, dois clichês: o mais novo sonhador e curioso e a adolescente em crise. O que abre espaço para cenas batidas, de despertar da imaginação do primeiro e enfrentamento do bullying da segunda.

A Glória e a Graça

Com todas essas escorregadas, fica complicado falar bem do filme. Poderia sobrar de bom o caráter “político” ou a mensagem que ele procura passar por meio da sua protagonista, mas nem isso teve.

Atuações

Se você acompanha o cinema nacional, a essa altura você pode ter tido contato com alguma polêmica em torno do filme, especificamente do fato da protagonista travesti ser vivida por uma mulher cis. Durante a coletiva, já era esperado que essas perguntas surgissem e eu posso tentar falar de alguns pontos, de acordo com o que ouvi por lá:

O filme perdeu sim a oportunidade de dar mais oportunidade a atrizes trans e travestis. Ao mesmo tempo, o diretor argumentou que a oferta de atrizes trans é muito baixa e isso era ainda pior há dez anos atrás.

O filme tem uma transsexual no elenco, a atriz iniciante Carol Marra. Ironicamente, sua presença só serviu para aumentar ainda mais as críticas, já que a impressão que passa é que está se cumprindo uma espécie de “cota”.

A própria Carol Marra vai na contramão das críticas, quando afirma que não vê nenhum problema em uma mulher cis interpretar uma travesti e vice versa. “Afinal, nós estudamos para ter versatilidade e eu, sendo trans, quero poder fazer qualquer papel”.

Por isso a questão não é tão simples quanto parece.

A Glória e a Graça
Carol Marra e Carolina Ferraz

E a Carolina Ferraz?

Defende com unhas e dentes o papel da Glória. Dá pra notar o esforço e a entrega dela ao longo do filme pra que as coisas funcionem. Infelizmente, não é o bastante. Explico:

Talvez você não saiba, mas Carolina Ferraz é a dona do roteiro. Ela comprou os direitos sobre ele lá atrás e desde o princípio, quando o filme ainda era só uma ideia, já se sabia que a protagonista seria feita por ela, que “se apaixonou pela Glória desde a primeira vez que leu”.

Quer dizer, o filme foi feito em volta da Carolina Ferraz e seu desafio pessoal de viver uma personagem totalmente diferente do que costuma fazer. E eu gostaria de dizer que deu tudo certo, mas não deu.

Não deu, primeiro porque Carolina tem lá as suas limitações, apesar de todo o esforço. Segundo porque a vontade de “fazer diferente” acabou se sobrepondo à vontade de “fazer bem feito”. Carolina disse na coletiva que “queria se afastar o máximo possível da figura da Carolina Ferraz”. Isso fez por exemplo com que a produção optasse por artifícios extremamente duvidosos, como Carolina forçar a voz pra ficar mais grossa (?????) e o pior, usar uma prótese bucal que a deixava com feições mais masculinizadas.

A Glória e a Graça

Tentativas de deixar Carolina o mais diferente possível da Carolina, que acabaram por deixar a protagonista com um visual extremamente caricato, que de forma alguma representa com exatidão uma travesti “de verdade”.

No fim das contas

Nada funciona direito e o filme fica no meio do caminho de tudo que propõe. A Glória e a Graça é uma tentativa louvável de fazer diferente num mercado cada vez mais engessado e fechado. Mas, infelizmente, não rolou.

E aí, Bastille?

Vinheta Bastille
Bonjour! Caros falangeir@s, vou ter que concordar com Náusea. Não, A Glória e a Graça não é um bom filme. Infelizmente.

Trata-se de um drama familiar que tem a particularidade de ter uma protagonista trans. Com isso, era de se esperar que o filme fugisse dos preconceitos habituais e oferecesse uma visão nova da mulher trans. Infelizmente, esse papel não foi cumprido.

O enredo

Graça é uma mãe solteira que, sofrendo de dores de cabeça repetidas, descobre que está com um aneurisma cerebral inoperável e pode morrer a qualquer instante. Preocupada com o futuro de seus filhos – Moreno, de oito anos, e Papoula, de quinze – ela decide entrar em contato com seu irmão Luiz Carlos, com quem deixou de falar há quinze anos atrás, por conta de uma briga. Mas Luiz Carlos já não é Luiz Carlos; agora é Glória. E Graça, além de lidar com sua doença, tem que recriar uma relação de irmã com Glória. O resto do enredo é bem como se espera: Glória não quer abrir mão de sua vida bem sucedida para criar os sobrinhos, mas no fim das contas ela cria afeto por eles e acaba adotando-os.

A Glória e a Graça
Glória e Graça, apesar das brigas do passado, e do presente, se reaproximam ao longo do filme.

Assuntos cotidianos

O filme retrata bem a dificuldade de lidar com doenças terminais, e ainda ter que se preocupar com quem vai ficar. A reconstrução da relação entre Graça e Glória também é bem realizada. Apesar de tentar aceitar a nova identidade da irmã e demonstrar apoio, Graça ainda deixa escapar uns “Luiz Carlos” em momentos de tensão. As crianças servem para fazer perguntas que muitos têm vergonha de fazer, mas de forma inocente. Algumas questões também são bem tratadas, apesar de poderem ter sido mais aprofundadas, como a questão da maternidade para um uma mulher trans.

Personagens caricatas

O maior problema de A Glória e a Graça são os personagens, que são muito estereotipados. A começar por Graça, que cumpre o papel da mãe solteira cuja íntegra do tempo é dividida entre os filhos e o trabalho e que tem dificuldade em se relacionar com a filha adolescente. E Papoula é uma personagem tão sem sal – sempre com cara fechada, não quer ajudar o irmão com dever de casa, não quer ser vista com a mãe na frente da escola, não demonstra interesse em nada – que fica difícil se apegar até quando descobrimos que ela sofre muito das ofensas de um grupo de meninas bullies na escola. Moreno até que é um bom personagem, mesmo que se encaixando em um papel de menino sonhador, que contribui para o carinho e o humor no filme.

Mas vamos ao que interessa: Glória e sua amiga trans Fedra. Um filme que usa o fato de ter protagonistas e até uma atriz transgênera para chamar a atenção se torna responsável por desconstruir preconceitos.

A Glória e a Graça
Glória (Carolina Ferraz) e sua amiga Fedra (Carol Marra).

A Glória e a Graça não desconstrói nada. Por mais que tenha se esforçado, Carolina Ferraz não convence no papel de Glória. As escolhas da atriz – cujo objetivo era se afastar ao máximo de Carolina, como comentado por Náusea – de usar uma prótese e forçar a voz masculinizam a personagem e fazem passar uma mensagem errada: a de que mulher trans não é bem mulher. Já é questionável botar uma mulher cis para fazer o papel de uma mulher trans e masculinizá-la. Quando ainda por cima a personagem apresenta características que todos já esperam de uma trans – um visual chamativo, um tom de voz escandaloso, envolvimento com prostituição –, acabamos por cair na caricatura.

Fedra – interpretada por Carol Marra, única mulher trans que ganha visibilidade nesta produção – também não se afasta do estereótipo, já que apresenta características parecida com as de Glória. A diferença entre as duas é apenas o sucesso profissional, pois enquanto Fedra tem dificuldade em achar seu lugar, Glória já viajou pelo mundo, fala vários idiomas, e possui seu próprio negócio.

Vale a pena assistir A Glória e a Graça?

Em resumo, a ideia do filme é louvável, porém o resultado final não convence, principalmente por causa da (má) construção das personagens. Além de algumas escolhas técnicas duvidosas, como a de usar cores aleatórias no filme apenas para não fazer um “drama cinza”, ou ainda de insistir nos diálogos sobre o fato da estória acontecer no Rio de Janeiro – vários bairros são mencionados várias vezes – mas não aproveitar o visual da cidade.

A Glória e a Graça
O uso de cores e luzes às vezes dá certa beleza às cenas, mas muitas vezes é isento de sentido.