Falange Resenha | A Forma da Água

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Vinheta da Mãe SerpenteGuillermo del Toro tem um olhar único no cinema. Quando efeitos digitais começaram a ocupar a maior parte dos quadros em filmes de fantasia, del Toro apostou alto em efeitos práticos e maquiagem. Isso é algo que dá a seus filmes um visual ao mesmo tempo mais realista e mais caricato. E enquanto se utilizava a fantasia como uma forma de escapismo seguro, del Toro fez questão de mostrar o quanto a fantasia pode ser crua, brutal, explícita, e ainda assim manter todo seu encanto. Seu novo filme, A Forma da Água (The Shape of Water), só chega ao Brasil em janeiro do próximo ano. Mas graças ao Festival do Rio de 2017, e ao sofá do Náusea, a Mãe conseguiu um convite para uma sessão especial. E A Forma da Água é exatamente o que todos esperavam, depois de sua divulgação inicial: belíssimo, com uma direção precisa e atuações fantásticas. Porém, com um roteiro previsível, o que não faz com que o filme perca sua magia, mas deixe de surpreender tanto quanto poderia.

A princesa sem voz

Uma das características mais marcantes de Guillermo del Toro é sua capacidade de utilizar temas e estruturas de contos de fadas para contar estórias que, por mais que sejam fantásticas, estão longe de serem seguras. Foram elementos utilizados em ambos os filmes de Hellboy (2004 e 2008) produzidos sob seu comando, embora o exemplo máximo dessa estratégia seja O Labirinto do Fauno (El laberinto del fauno, 2006). Del Toro já deixou clara sua posição, em inúmeras entrevistas, de que contos de fadas não devem privar crianças, e adultos, da realidade do mundo. Ao invés disso, devem ser estórias que ensinem algo sobre o mundo real, cheio de cantos escuros e figuras sombrias.

Image do filme 'O Labirinto do Fauno', também conhecido como 'Pan's Labyrinth', que mostra o Homem Pálido. Os olhos colados à mãos, enquanto as mãos estão sobre o rosto da criatura.
O Homem Pálido de ‘O Labirinto do Fauno’ é a representação máxima da ideia de del Toro de que bons contos de fadas também têm violência, medo e perigo real. Só não gosto mais dele porque me plagiou… A Mãe tem olhos nas mãos desde antes de chegar nessa dimensão…

É com essa perspectiva que o narrador de A Forma na Água antecipa, na abertura do filme, uma estória sobre um príncipe, um monstro e uma princesa sem voz. A princesa sem voz é Eliza Esposito (Sally Hawkins), muda desde bebê; uma condição possivelmente relacionada com as cicatrizes em seu pescoço. Apesar de ser incapaz de falar, Eliza constrói uma relação especial com o som ao seu redor. A paixão pela música, e pela dança, é alimentada por seu vizinho e amigo Giles (Richard Jenkins) e pelo fato de seu decadente apartamento se localizar no topo de um cinema. O ano é 1962, e os grandes musicais de Hollywood ainda são exibidos e prestigiados. Inspirada por nomes como Alice Faye e Carmen Miranda, Eliza tenta ser otimista com a vida, apesar das adversidades.

Toda noite, quando o despertador toca, Eliza cumpre à risca sua rotina. Prepara sua comida, toma um banho, se toca, arruma as coisas para o trabalho. Dorme recostada na janela do ônibus enquanto aguarda o momento certo de descer. Ao longo da madrugada, irá limpar banheiros, esfregar o chão e tirar o pó de computadores e máquinas gigantescas. De sua pequena posição dentro de um departamento de pesquisas dos Estados Unidos, Eliza pouco entende sobre o que acontece na disputa armamentista e tecnológica da Guerra Fria. E pouco se preocupa. Ao menos até a chegada de um novo espécime ao laboratório, um homem anfíbio, com o qual Eliza aos poucos cria laços afetivos profundos.

Imagem do filme 'A Forma da Água' ou 'The Shape of Water', de Guillermo Del Toro. A imagem mostra Eliza se encontrando com a criatura, que está acorrentada em seu tanque.
Embora, à primeira vista, Eliza e a criatura sejam completamente diferentes, logo se percebe o quanto os dois compartilham dores e desejos. E daí que se constrói sua relação.

Eliza Esposito é uma personagem complexa. Sem exposições desnecessárias, cada detalhe de sua vida é apresentado de forma minuciosa ao espectador. Uma tarefa ainda mais difícil considerando a ausência de palavras. O mérito de del Toro é de dirigir com maestria cada cena, e criar uma montagem final clara, apesar da mudez da protagonista. Mas sem a presença de Sally Hawkins, Eliza não teria a mesma vida. Não é à toa que já se discute a presença da atriz como candidata ao Oscar por sua performance em A Forma da Água. Nem é muito difícil imaginar que Hawkins possui chances reais de ganhar. Del Toro possui uma sensibilidade louvável de criar personagens interessantes, e de escalar atores capazes de traduzir suas intenções. Uma união de objetivo e execução que inclui todo o elenco.

60’s

Mais do que serem agentes da ação, as personagens de del Toro ajudam a construir um panorama narrativo. Cada ser na estória de A Forma da Água serve a um propósito específico, que ajuda a compreender a situação cultural, política e social dos Estados Unidos na década de 60. Sem que, para isso, seja necessário desviar da construção do conto de fadas. A colega de trabalho de Eliza, Zelda (Octavia Spencer), faz graça da situação de seu casamento e reclama do marido. Mas além de ser a principal fonte de humor do filme, Zelda também é negra, fato importante para que o racismo se materialize na trama. E mais do que um problema isolado, o racismo, em sua natureza estrutural, ganha espaço também na televisão de Giles, onde protestos pelos direitos dos negros são noticiados.

Giles, por sua vez, não quer saber desses protestos. Acompanha com afinco a exibição dos musicais que adora, e junto de Eliza arrisca algumas coreografias de sapateado, sentado no sofá. Giles é um pintor em decadência, depois de perder sua posição em uma agência de publicidade, que agora prefere a rapidez da fotografia. Giles também é gay, e precisa conviver com o isolamento que sua orientação sexual lhe impõe.

A criatura anfíbia, então, é apenas mais um caso de exclusão. Apenas outro indivíduo que se torna alvo em uma sociedade que acha que qualquer diferença precisa ser combatida. E Doug Jones mais uma vez demonstra sua incrível capacidade de personificar seres diversos, manifestando tanto aquilo que possuem de humano quanto aquilo que lhes é único. O homem anfíbio, como Abe Lincoln de Hellboy, ou o fauno do labirinto, tem um jeito próprio de andar, nadar e expressar emoções. Um jeito alienígena, e ao mesmo tempo reconhecível.

Imagem do filme 'A Forma da Água' ou 'The Shape of Water', de Guillermo Del Toro. A imagem mostra parte do rosto da criatura saindo da água.
O fato da criatura ser feita mais com maquiagem e próteses do que modelagem digital torna as imagens do filme mais impressionantes.

Para completar um elenco de peso, Michael Stuhlbarg interpreta o doutor Hoffstetler, cientista responsável por estudar a criatura, e infiltrado comunista; a personificação da ameaça vermelha, ao mesmo tempo que da universalidade e importância maior da ciência. Já Michael Shannon vive Strickland, chefe de segurança. Machista, racista, defensor da violência como meio de conseguir poder, Strickland utiliza a crença cristã como um escudo e  justificativa de sua vontade de ser superior aos outros. A metáfora exata para sua época, e o inimigo final contra o qual todos os excluídos se unem.

A diversidade de elenco e personagens ajuda a capturar a essência de uma década. Bem como o cuidado de del Toro com cenários e objetos. Tudo isso ajuda os espectadores de A Forma da Água a desconsiderarem seu aspecto menos impressionante: um roteiro em que tudo segue exatamente como se espera.

Nenhuma surpresa em A Forma da Água

A presença do narrador, no início do filme, não serve apenas para relacionar A Forma da Água com a estrutura de contos de fadas. Funciona como um recurso narrativo que anuncia, em bom tom, qual será o desfecho das ações que se desenrolam na telona. Não há, então, a expectativa de um final surpreendente. Não é essa a intenção da obra. A jornada, aqui, importa mais que o destino.

Acontece que mesmo a jornada nunca desvia de um caminho traçado por anos de roteiros similares. Já se sabe o que irá acontecer em seguida, todo o tempo. Isso parece ser uma escolha consciente, em prol de uma realização mais poética de cenas já conhecidas pelo imaginário geral de consumidores de cultura popular. Entretanto, acaba por enfraquecer o potencial de impacto que muitas dessas cenas deveriam ter. Por mais que o romance entre mulher e criatura alegre o público, principalmente quando o filme explora o potencial imagético da água e do mundo submerso, o drama da relação é previsível ao ponto de não causar reações emocionais mais fortes. Não há risco real, e por isso não há a necessidade de sofrer junto das personagens, quando algo parece que dá errado.

No fim das contas, apesar de ser um dos melhores filmes do ano, A Forma da Água não consegue ser o melhor filme de del Toro. E O Labirinto do Fauno permanece intocado como o exemplo máximo da visão única que o diretor tem de contos de fadas e da fantasia em geral.