Falange Resenha | A Entidade (Sinister)

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Vinheta da Mãe SerpenteAté agora, nossa lista para o Mês das Bruxas priorizou filmes que tivessem uma temática ou um formato inovador. Tudo isso com o objetivo de mostrar o quão variado o gênero do horror pode ser. A Entidade, de 2012, ou Sinister no original, se diferencia dos outros filmes dessa lista justamente por se basear em clichês do gênero. Uma família se muda para uma casa assombrada, e lá descobre a existência de uma força sobrenatural que os coloca em risco. Por que esse filme se diferencia de outros de mesma temática, então? Porque A Entidade se propõe a investir pesado na qualidade técnica do filme, o que inclui sua fotografia, direção, atuação e edição de som. E isso faz uma diferença gigantesca no resultado final.

Para sentir medo

Sim, o horror pode ser um gênero extremamente reflexivo. Mas o entretenimento também é necessário para a vida humana. Muitas vezes você precisa sentar na frente de uma tela e se distrair, ao invés de discutir temas profundos da natureza humana. Da mesma forma que a comédia, o horror, em grande parte, é criado como uma distração momentânea. Acontece que, ao longo de décadas, grandes produtoras consideraram o gênero um tipo inferior de cinema, e por isso a verba liberada para filmes de terror sempre foi limitada, e focada em efeitos especiais. A qualidade do filme era medida pelo realismo da criatura que salta na tela, independente dos roteiros fracos e estórias desinteressantes. Todo mundo consegue nomear franquias inteiras de terror que não conseguiram se sustentar por muito tempo.

A Entidade faz parte de uma nova leva de filmes de horror que tentam emplacar franquias a partir da alta qualidade de suas produção. Também se enquadram nessa classificação outro ótimos filmes dos anos 2010, como Sobrenatural (Insidious, 2010) e Invocação do Mal (The Conjuring, 2013). Todos esses filmes partem de cenários reconhecíveis para os fãs do gênero, mas se preocupam em escalar um elenco de qualidade, e contratar diretores competentes na supervisão de fotografia e edição de som. O resultado final é um entretenimento de altíssima qualidade, e filmes que estão entre os mais assustadores do século, mesmo que não inovem em sua temática ou formato geral.

É interessante observar que a produtora Blumhouse, uma queridinha da Mãe, é a casa de duas dessas franquias: A Entidade e Sobrenatural. E tanto Sobrenatural quanto Invocação do Mal foram dirigidos por James Wan, o criador da franquia Jogos Mortais, com um revival marcado para esse ano.

A Entidade

Esse contexto é importante para que a descrição geral de A Entidade não afaste de cara aqueles acostumados com a mesmice do cinema de horror. Mesmo porque a tradução genérica e imprecisa vai direto ao ponto, enquanto o título original, Sinister, ou Sinistro, torna a presença da entidade uma realidade a ser gradualmente descoberta pelo espectador. A estória acompanha Ellison Oswalt, um escritor em decadência especializado em crimes reais. Ellison planeja seu próximo livro em torno da morte misteriosa de quatro membros de uma família, todos enforcados ao mesmo tempo em uma árvore. A única sobrevivente, a filha mais jovem da família, desapareceu sem deixar rastros.

Para entender melhor o que aconteceu, e conseguir fama ao desvendar um crime abandonado pela polícia, Ellison compra a casa em que os assassinatos ocorreram, e se muda para lá com sua família. Não demora muito para que Ellison descubra uma misteriosa caixa com filmes super 8, um tipo específico de filme cinematográfico, em que outras mortes coletivas de famílias também estão documentadas. A princípio, a série de mortes parece ter alguma ligação com um assassino em série, ou com um grupo ritualístico. Mas aos poucos a entidade Bughuul toma forma na estória.

Imagem do filme A Entidade, ou Sinister. A imagem mostra a gravação em super 8 do enforcamento coletivo de uma família.
As gravações em super 8 de cada assassinato são impressionantes. A granulação do filme permite que não seja necessário investir em efeitos especiais pesados para garantir o realismo das cenas.

O personagem principal do filme, Ellison, é interpretado por Ethan Hawke, um ator veterano, e talentoso, que estrela grandes filmes como Gattaca (1997) e Dia de Treinamento (Training Day, 2001). A experiência de Hawke é essencial para o clima tenso do filme, já que o ator consegue guiar sem esforços a narrativa. O roteiro também se baseia em uma estória concisa, sem falhas, e que é revelada pouco a pouco, o que permite ao espectador ter o tempo necessário para digerir gradualmente todas as informações, e internalizar o medo sentido pela personagem de Ellison. Por fim, o uso dos filmes em super 8, somado a uma edição de som e música de fundo impecáveis garantem uma experiência realmente perturbadora.

Imagem do filme A Entidade, ou Sinister. A imagem mostra a representação do enforcamento coletivo de uma família em um desenho infantil.
Cada filme super 8 também possui um desenho infantil correspondente, inocente ao mesmo tempo que perturbador. O nome dos vídeos em inglês também faz referência a cenas clássicas em vídeos de família, ao mesmo tempo que indicam a violência das mortes. O enforcamento, por exemplo, é chamado de “hanging out with the family”, que significa “passando um tempo com a família”, mas literalmente pode ser “dependurado com a família”.

Outro grande acerto de A Entidade está na construção de suas personagens. As relações, humanas e complexas, não dependem de cenas de exposição, mas são compreendidas aos poucos, conforme conflitos e diálogos naturais surgem na tela. A ideia de um escritor acostumados a crimes reais também cria a desculpa perfeita para utilizar o processo de investigação ao descobrir os detalhes sórdidos da estória de Bughuul. Infelizmente a continuação de A Entidade, Sinister 2 (2015), não fez jus ao original. Contudo, considerando a altíssima qualidade do primeiro filme, ainda há a esperança de que uma franquia sólida possa se formar. Quem sabe com o retorno à direção de Scott Derrickson, que apenas foi o roteirista do segundo filme.