Falange Resenha | A Bruxa (The Witch)

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Vinheta da Mãe SerpenteFinalmente chegou o Halloween. E para fechar esse especial de Mês das Bruxas, só uma figura poderia ser a homenageada: a bruxa. E a escolha do filme A Bruxa (The Witch, 2015) como a resenha final dessa série de textos é também muito pessoal para a Mãe Serpente. O primeiro texto sobre horror que a Mãe já publicou na Falange foi justamente inspirado pelo lançamento relâmpago do filme no Brasil, depois de um sucesso inesperado nos Estados Unidos e Canadá. E ao invés de uma resenha, no ano passado a Mãe decidiu falar de uma nova tendência do horror, de ser mais introspectivo, e voltado para os desejos e impulsos, ao invés da força exterior de um monstro qualquer. É hora de retomar essa pérola do cinema, e discutir mais a fundo o que faz de A Bruxa um dos melhores filmes dos últimos anos.

Em nome de Deus

Depois de se desentender com a igreja do acampamento local, um cristão fervoroso chamado Willian (Ralph Ineson) leva sua família para fora da segurança da sociedade, em busca de um lugar onde possa viver de acordo com os ensinamentos religiosos que considera corretos. Apesar de seus antigos vizinhos e colegas também se identificarem com o cristianismo, William acredita que uma abordagem mais ortodoxa é necessária para garantir a salvação da alma. Na beira de uma floresta, a dias de viagem do povoado mais próximo, William constrói aos poucos a fazenda onde irá criar seus filhos.

A fervura de sua fé, no entanto, não impede sua plantação de apodrecer. Suas galinhas poem ovos com embriões mal formados, e suas cabras dão pouco leite. Toda oração parece silenciosa aos ouvidos de Deus, que insiste em castigar a terra, e por consequência o sustento, da família de William. A Bruxa, então, é uma estória que retrata não só o início do século XVII, com o processo de colonização da Nova Inglaterra, atualmente os Estados Unidos. Mas mostra o quanto o fanatismo religioso é capaz de colocar em perigo a própria sobrevivência daqueles que o praticam. Um tema em nada limitado a barreiras históricas, e mais atual do que nunca no Brasil.

Imagem do filme A Bruxa, ou The Witch. Na imagem uma família está de joelhos, clamando aos céus na frente de um campo vazio.
O que William e sua família acreditam ser uma benção acaba por se tornar sua perdição.

A luta de William em se provar um fiel a Deus é o que acaba por pôr em risco toda sua família. Isolados do mundo, cada um de seus filhos, e sua esposa, precisa lidar com desejos secretos, e pecados escondidos. Clamando pela salvação enquanto se agonizam na certeza da punição divina. O Deus cristão do fanatismo está longe de ser um deus caridoso, mas é sempre lembrado junto da condição imunda da humanidade, e como uma figura que castiga e testa a todo tempo. Não existe compaixão suficiente na crença de William; sua obediência vem da tortura de seus pensamentos, cada vez que imagina o sofrimento eterno que o espera, e à sua família, caso qualquer falha seja cometida. E no fim das contas é o fanatismo, e a repressão de desejos, que deixa William e sua família suscetíveis ao ataque lento, mas preciso, de uma bruxa que vive na floresta.

A bruxa e o demônio

Na tradição cristã não existem bruxos. A bruxa é uma figura estritamente feminina porque mulheres estão mais suscetíveis ao pecado. É Eva quem a serpente engana, e é pela palavra de Eva que Adão é convencido a também comer do fruto proibido. Bruxas, então, são mulheres que, devido a sua suscetibilidade ao pecado, cedem à tentação do demônio, para em seguida destruir a alma dos homens. Embora William seja a personagem que dá início à trama, e embora a atuação de Ralph Ineson seja impecável ao longo de todo o filme, é sua filha mais velha, Thomasin, que serve de protagonista de A Bruxa.

Imagem do filme A Bruxa, ou The Witch. Na imagem Ralph Ineson, que interpreta William, está parado de frente para a câmera.
Embora Ralph Ineson se destaque em sua atuação crua e intensa, todo o elenco de ‘A Bruxa’ foi selecionado à perfeição.

Thomasin, fustigada pela fome e pela dificuldade de uma vida isolada, trai em pensamento os ensinamentos cristãos de seu pai. Embora deseje sempre estar na graça de Deus, não consegue impedir seus pensamentos de fugirem à Palavra. E depois que seu irmão mais novo, ainda bebê, é raptado, o ódio de sua mãe acaba por piorar o estado de angústia da jovem. A Bruxa, então, é também a jornada de uma jovem, incapaz de lidar com desejos e pulsões humanas. Desejos e pulsões reprimidos de forma severa pela violência de uma fé pregada a fogo e dor, no lugar da compaixão. Não é à toa que seja por meio de Thomasin que o espectador pode compreender melhor as motivações da bruxa na floresta.

Capaz de atos horrendos, a figura sinistra que se esgueira nos bosques não hesita em utilizar a violência para conseguir o que quer. As cenas mais chocantes são sempre interrompidas por cortes bruscos de som e imagem, mas isso não retira o pavor que o espaço vazio permite à imaginação preencher. Sem a confirmação sonora ou visual do que acontece, é natural que nossa mente sofra ainda mais com as sugestões na tela. E é assim, de forma lenta, sugerida, e cada vez mais imperativa, que a bruxa surge na estória. Cada vez mais apta a utilizar os temores da fé de William e sua família como uma arma a seu favor. Ela é o oposto daquilo que o pai tenta ser, alguém que não suporta a distância entre seu desejo e a ação de possuir.

Desejo e repressão

A batalha de A Bruxa é travada entre o desejo, sem qualquer amarra, e a repressão, sem qualquer limite. Uma batalha que testa a fé do cristianismo ortodoxo, que, no fim das contas, é incapaz de resistir à tentação. A Bruxa é assustador de uma forma distinta do horror padrão, sem sustos, e com sua violência mais sugerida que realizada. Ainda assim, o temor que A Bruxa é capaz de causar deriva, em grande parte, da cultura ocidental cristão. Independente do espectador ser ou não cristão, todos conseguem entender a brutalidade do inferno, como um lugar de punição. O desespero de se reconhecer um pecador, então, é um sentimento fácil de compartilhar, principalmente quando cada detalhe do filme é tecnicamente perfeito. Desde a fotografia à edição de som, A Bruxa foi feito com uma atenção única, e com o objetivo de simular ao máximo o desconforto e angústia que a fé desmedida pode causar, quando deriva unicamente do medo do fogo eterno.

E embora a promessa de um sofrimento sem fim nunca deixe de existir, é impossível suprimir aquilo que também nos torna humanos. Os olhares à pele descoberta de um corpo belo e familiar, a raiva contra alguém que deveria ser amado, a mentira como uma forma de evitar conflitos. A mensagem final de A Bruxa é que o perigo real está na negação de nossa natureza, dos instintos que também constituem a humanidade. Uma negação que, no fim das contas, pode levar ao contrário da repressão: a ação descabida de uma bruxa, cansada de sofrer, e disposta aos atos mais horrendos para satisfazer seus desejos.

Imagem do filme A Bruxa, ou The Witch. Na imagem uma jovem nua e ensanguentada aparece na frente de um fundo preto.