Falange Resenha | A Babá (The Babysitter)

0

Vinheta da Mãe SerpenteCom uma estreia programada para a última sexta-feira 13, A Babá (The Babysitter) se apresenta como um horror trash e cômico, a começar pelo seu conceito. Enquanto seus pais viajam no fim de semana, Cole descobre que sua babá é uma maníaca assassina que faz parte de um culto satânico. Pior, seu sangue de inocente é um ingrediente necessário para o próximo ritual profano. Cole, então, precisa se defender, preso em sua própria casa com adoradores de Satã. Ainda que a ideia inicial seja inédita, e se proponha a fazer graça com uma situação mais do que surreal, A Babá não entrega o que promete. E apesar de alguns elementos interessantes espalhados pelo filme, o resultado final não consegue nem manter uma coerência interna mínima, nem ser engraçado. Nem só de uma boa ideia se faz um filme.

Sangue e Sexo

Mortes violentas e sexo. A ideia do terror trash é exagerar ao máximo os elementos clássicos do horror ao ponto de transformar tanto o medo quanto a sensualidade em uma situação cômica. Até certo ponto, A Babá cumpre com os requisitos básicos do gênero. Não faltam tomadas em câmera lenta da belíssima babá de biquíni ou com poucas roupas, em ângulos sedutores, e em situações insinuantes. Existe também uma longa tomada em close de um beijo lésbico, seguida imediatamente pela primeira morte, com jatos de sangue tão irreais que fariam inveja a Tarantino.

Em sua primeira meia hora, A Babá diverte pelo seu uso do sangue e do sexo, e alguns de seus recursos técnicos são particularmente interessantes. Além da câmera lenta, a direção brinca também com a noção de perspectiva. Um exemplo claro desse recurso é quando se modifica o foco e enquadramento para que o segundo andar de uma casa se torne um abismo, uma noção alinhada ao olhar de uma criança de doze anos. Tomadas com ações sincronizadas à música também fazem parte do repertório do filme, bem como letreiros gigantes na apresentação de personagens, ou na descrição de reações óbvias do protagonista.

A maquiagem e os efeitos, visuais e práticos, que envolve a chacina que já é esperada em filmes trash, também são bem produzidos, e as cenas mais sangrentas se tornam também as mais hilárias, pelo exagero planejado da circunstância. Toda a criatividade envolvida no filme, no entanto, foi dirigida para esses momentos. Em relação a roteiro, diálogos e interpretações, A Babá não consegue ser nada além de um filme genérico com humor forçado.

A babá e a coerência

O primeiro problema óbvio de A Babá é o uso de clichês na composição de todas suas personagens. Quando o grupo de satanistas é apresentado, temos os modelos exatos da líder de torcida, do jogador de futebol, e até mesmo do negro que só está ali para mostrar a heterogeneidade do grupo. Há também uma asiática misteriosa sem um papel definido. O que poderia ser uma boa oportunidade de fazer graça com a forma dos filmes hollywoodianos representarem o colegial se torna apenas uma oportunidade perdida. Nenhum personagem ganha tempo de tela o suficiente para ser desenvolvido. E quando aparecem, estão ali para representar inimigos sem personalidade. Pior, é comum que os satanistas interrompam sua perseguição a Cole em troca de qualquer piada brega e fora de contexto.

Imagem do filme A Babá, ou The Babysitter, a nova produção original da Netflix. A imagem mostra um garoto amarrado em uma cadeira, enquanto cinco jovens estão parados, de pé, em frente a ele.
Sabe por que Robbie Amell está sem camisa nessa imagem? Ninguém sabe. Essa é a “piada”.

Mas não só os vilões são burros em A Babá. A criança também ignora qualquer lógica para manter viva a ideia de um terror inspirado em Esqueceram de Mim (Home Alone, 1990). E por isso o filme não chega aos pés do clássico da Sessão da Tarde. São muitas as oportunidades que Cole tem de simplesmente fugir. Isso porque seus opositores se revezam na perseguição do garoto, sem motivo. E passam longos minutos escondidos para dar ao garoto a chance de se armar e criar estratégias, sem motivo. Estratégias no mínimo imbecis, que incluem se esconder embaixo da casa depois de já estar na rua e livre dos malfeitores.

A imbecilidade, para ser sincero, deve ser resultado de algo colocado na água do universo de A Babá. Em um bairro suburbano e pacato, gritos, tiros e até mesmo explosões são insuficientes para chamar a atenção dos vizinhos. Nem mesmo a chegada de um carro de polícia com sirenes ligadas no meio da madrugada perturbou o sono das pessoas. É uma falha grave de roteiro desconsiderar o vizinho chato que reclama até da respiração alheia, figura que existe não só na realidade, mas como recurso narrativo recorrente no humor.

Imagem do filme A Babá, ou The Babysitter, a nova produção original da Netflix. A imagem mostra Allison, interpretada por Bella Thorne, segurando uma faca com roupa de líder de torcida.
Bella Thorne consegue a proeza de se destacar como uma péssima atriz em um filme com atuações medíocres. O que é surpreendente depois de ver seu magnífico trabalho em… ou quem sabe em… por que continuam escalando ela para atriz mesmo?

Por tudo isso a narrativa de A Babá se torna cada vez mais incômoda, porque ações inexplicáveis e diálogos sofríveis se acumulam. A boa produção das mortes é o que garante momentos de diversão quando todo o resto falha. Apenas isso. Por essa razão, quem é fã do terror trash pode encontrar uma distração despreocupada em A Babá. Mas mesmo quem gosta do gênero ainda pode escolher assistir a coisas melhores.