Falange NÃO Resenha | A Noiva (Nevesta)

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Vinheta da Mãe SerpenteEscrito e dirigido por Svyatoslav Podgayevskiy, um novo filme russo chegou aos cinemas brasileiros na última semana. A Noiva, Nevesta no original, entrou de imediato na lista da Mãe, que estava nos cinemas na data de estreia. Depois de assisti-lo, no entanto, se tornou óbvio que não seria possível fazer uma resenha que respeitasse a obra original. Faz parte do trabalho da crítica analisar qualquer produto cultural a partir de tudo o que ele oferece. É por isso que a Mãe sempre prioriza filmes legendados, para ser capaz de apreender o que os atores originais pretendiam, independente da qualidade, ou da falta de qualidade, que uma dublagem pode ter. Acontece que com A Noiva a distribuidora do filme, a Paris Filmes, adotou uma estratégia comercial duvidosa: todas as cópias de A Noiva, no Brasil, já foram pré-dubladas em inglês. E o mundo tem razão em dizer que a dublagem norte-americana é incompetente.

A importância da dublagem

Por mais que muita gente torça o nariz para o processo de dublagem, ela é uma ferramenta essencial na popularização do cinema. Principalmente em países com um índice de leitura tão baixo, como o Brasil, onde o contato com línguas estrangeiras também é extremamente limitado. Dublar qualquer coisa é uma tarefa complicada; exige não somente a tradução literal, mas a adaptação de sentidos para o público-alvo. Não faltam referências populares em obras audiovisuais, e a transposição literal dessas referências para o português perde o sentido. É necessário, então, encontrar equivalentes que possam ser reconhecidos pelo público alvo. E é por isso que a versão dublada não é exatamente exatamente fiel à original, mas nem por isso deixa de representar os sentidos pretendidos.

Não é à toa que um produto dublado, muitas vezes, faz mais sucesso do que o filme inalterado. As alterações necessárias para quem não compreende nada da língua e cultura produzem novos significados, que podem agradar mais um outro público. E o Brasil é um dos principais pólos de dublagem do mundo, em questão de qualidade. Temos excelentes dubladores, e uma capacidade ímpar de introduzir nossa própria percepção cultural em obras diversas. Uma prática ameaçada pela intromissão de figuras públicas conhecidas, atores e apresentadores, como vozes de personagens animados; pessoas que não são dubladores profissionais, e por isso incapazes de compreender as nuances dessa prática.

Imagem do apresentador Luciano Huck em um estúdio e dublagem, na frente de um cartaz de Tangled, ou Enrolados, da Disney.
Nem é necessário fazer muito esforço para desenterrar grandes vexames da dublagem não-profissional…

Esse discurso todo, por mais fora de questão que pareça, é necessário para compreender o quanto uma dublagem ruim pode afetar a qualidade global de um filme.

A dublagem em A Noiva

A primeira coisa que qualquer pessoa pode perceber com A Noiva é que seu conjunto de dubladores é incapazes de mudar a entonação da própria voz de forma significativa. Seja em momentos de tensão ou de relaxamento, as vozes em inglês seguem o mesmo andamento, e modificam apenas seu volume, incapazes de reproduzir qualquer emoção dos atores originais. Só isso torna impossível analisar com clareza o trabalho da atuação, elemento essencial para a crítica de qualquer obra cinematográfica. Mas isso não é o pior da dublagem escolhida.

No processo de captação das vozes, os microfones utilizados não possuíam grande qualidade, porque gravavam também ruídos das salas onde os dubladores estavam. Como é possível saber isso? Porque o chiado no fundo das vozes permaneceu na versão final do filme. Não ouve um cuidado mínimo da equipe de edição ao ponto de remover ruídos, coisa que qualquer pessoa pode fazer de seu próprio computador com programas gratuitos de edição de áudio.

Há falhas óbvias também na montagem de som. Ao introduzir as vozes dubladas, a equipe de edição apagou barulhos do filme original. Não houve um cuidado na separação de canais, e as vozes, em muitas cenas, foram sobrepostas à faixa principal. Todo o áudio de vozes também foi elevado a um volume maior do que o resto do filme, o que atrapalha a audição dos outros sons de A Noiva. Por fim, a voz da aparição do filme parece ter sido criada com um filtro qualquer encontrado em aplicativos de celular, principalmente no mês das bruxas.

Imagem de divulgação de A Noiva, ou Nevesta, filme russo de terror e horror. A imagem mostra uma noiva morta, com olhos pintados sobre as pálpebras, em uma fotografia antiga e desbotada.

A não crítica de Nevesta

A Noiva possui problemas óbvios de roteiro, mas seria injusto fazer uma crítica do filme sem compreender todos seus aspectos. Principalmente quando o som é elemento tão essencial para o horror. A péssima qualidade da dublagem do filme torna diversos momentos engraçados, ou constrangedores. Assim, não é possível julgar a obra de forma isenta, por mais defeitos que ela possa ter.

A Mãe entrou em contato com a Paris Filmes, que confirmou que a versão dublada em inglês é a única que foi disponibilizada no Brasil. Provavelmente porque se avaliou que o inglês é melhor reconhecível do que o russo pelo público brasileiro. Essa escolha, infelizmente, irá afetar o desempenho do filme no país. O público acostumado a ver filmes dublados irá procurar sessões com dublagem em português. Já aqueles que preferem o som original dos filmes, certamente sairão decepcionados dos cinemas.

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Crítico de videogames, observador atento da cultura pop, viajante extraplanar e conhecedor das artes ocultas. Um membro da Falange.