Falange Indie #9 | Undertale

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Mãe SerpenteO JRPG é o gênero mais acessível para desenvolvedores principiantes de videogames. Isso porque JRPGs seguem uma fórmula básica de derrotar inimigos, coletar experiência e itens, e assim derrotar inimigos mais poderosos. Normalmente não existe muita variação, e é em sua narrativa que um JRPG se destaca. E como existem ferramentas específicas e de fácil uso para fazer esse tipo de jogo, como o RPG Maker, qualquer pessoa com paciência, tempo e uma boa ideia de estória pode se aventurar em criar seu próprio jogo. É por isso que o mercado está inundado de jogos extremamente parecidos. E é por isso que quando um JRPG começa a ganhar atenção de um grande público em pouco tempo, vale a pena prestar um pouco de atenção do projeto. Undertale, a princípio, parece apenas mais um JRPG. Poucas horas de jogo, no entanto, o transformam em uma das mais fantásticas experiências dos videogames.

Sucesso inusitado

Undertale é fruto de quase três anos de trabalho de Toby Fox. Toby Fox compôs todas as músicas da trilha sonora original de Undertale, programou sozinho todo o jogo, escreveu a narrativa e diálogos, e desenvolveu quase todos os recursos visuais. Tudo isso graças a uma demo bem sucedida, lançada em 2013, que possibilitou a campanha de financiamento coletivo de Undertale arrecadar mais de 50 mil dólares. O orçamento inicial do projeto era de apenas 5 mil dólares. O jogo completo foi lançado oficialmente em 2015 para computadores, e semana passada chegou ao PlayStation 4, reacendendo o carinho da legião de fãs que conquistou em apenas dois anos.

Mas por que um jogo de gráficos simples atraiu tantos jogadores de gerações habituadas a texturas e cenários cada vez mais detalhados? Principalmente se consideramos que o JRPG é um gênero que agrupa tantos jogos genéricos. Começar a jogar Undertale, na tentativa de compreender a febre do jogo, não é suficiente para dar uma resposta satisfatória. Sim, a música é belíssima. Mas trilhas sonoras originais ganham cada vez mais importância, principalmente em produções independentes. Logo, esse não é mais um motivo suficiente, por si só, de destaque de um jogo. Existe um sistema de combate que faz com que os ataques de inimigos funcionem como minigames, o que é genial. Mas isso também não é suficiente para ultrapassar o engessamento do JRPG de matar inimigos, subir de nível, ficar mais forte e matar inimigos mais fortes.

Imagem do jogo Undertale, de Toby Fox, que mostra a batalha contra Papyrus e demonstra a técnica de ataque.
Para atacar, não basta selecionar uma opção no menu. É necessário esperar que uma barra chegue ao centro da tela, e apertar o botão de confirmação no momento exato.
Imagem do jogo Undertale, de Toby Fox, que mostra a batalha contra Toriel e demonstra o sistema de defesa, em que um minigame é ativado para se desviar dos projéteis inimigos.
Já para se defender, é necessário controlar um coração vermelho, que representa a alma da protagonista, e desviar dos ataques dos inimigos em tempo real.

Undertale se destaca pelo sistema de moralidade que oferece. Um sistema que ultrapassa o núcleo do jogo, e brinca com a própria expectativa de um jogador em relação ao que é um JRPG, e o que são videogames, de uma forma geral. Isso porque, apesar de dezenas de inimigos e batalhas de mestre complexas, Undertale pode ser concluído sem matar ninguém. Nem coletar experiência. Nem subir de nível. Nem  equipar armas mais poderosas.

Undertale | Um RPG pacifista

É difícil entender, logo de cara, como Undertale consegue te cativar tanto, enquanto jogador. A estória é bem escrita, mas outros jogos possuem boas estórias, sem que o jogador se sinta tão motivado a continuar jogando. As personagens são complexas e cativantes. Mas outras personagens, de outros jogos, tão complexas e cativantes, muitas vezes não deixam uma impressão tão duradoura. O que realmente diferencia Undertale de outras experiências com jogos é a forma como se interage com o mundo. Mesmo porque a narrativa se desdobra de acordo com a opção do jogador em destruir ou preservar a vida alheia. E as personagens se desenvolvem também de acordo com a sequência de interações.

Os jogos eletrônicos possuem uma linguagem própria, baseada em grande parte em seu potencial de interação. Undertale compreende isso com perfeição, e subverte uma das estruturas mais passivas nos jogos, a do JRPG, para colocar o jogador como co-responsável pela estória. A cada batalha, é possível escolher matar o inimigo de uma forma tradicional. Ou então brincar com as ações possíveis, e dessa forma descobrir formas de convencer o inimigo a desistir da luta, ou enganá-lo para fugir. Ao invés de desaparecerem, esses inimigos se tornam os NPCs que povoam cidades, ocupam estradas, e interagem uns com os outros. A escolha de poupar ou matar inimigos, assim, dita o rumo da estória.

Imagem do jogo Undertale, de Toby Fox, que mostra o inimigo Mettaton sob um letreiro de programa de auditório.
‘Undertale’ também é extremamente divertido por brincar, todo o tempo, com a metalinguagem. Personagens específicas não apenas sabem que estão em um jogo, outras tem como objeto de sua vida programa interagir com um público imaginário.

Não se trata apenas de fazer o jogador considerar o peso da morte, e da escolha de assassinar livremente inimigos, sem nenhuma punição. Para cada combinação diferente de personagens mortos ou vivos, ao final da aventura, o final do jogo sofre alterações. O destino da sociedade dos monstros muda dependendo de quem ficou vivo, e quem morreu. Itens especiais, diálogos, pedaços da estória do universo também só se tornam acessíveis quando escolhas específicas são feitas, o que incentiva o jogador a completar Undertale várias vezes. E como se trata de um jogo relativamente curto, com cerca de seis horas de duração, zerar Undertale de novo não é difícil. Mesmo porque os melhores finais do jogo exigem o conhecimento de mecânicas específicas.

Pacífico ou genocida?

Independente de qual combinação de mortes o jogador possua ao final do jogo, a mensagem no final dá dicas de como alcançar a melhor conclusão possível. Para isso, é necessário terminar Undertale sem matar nenhum personagem. Nenhum. E como toda batalha é também um puzzle, quando você se recusa a usar armas, essa é uma tarefa desafiadora, algumas vezes. A tentação de tomar o caminho mais curto e simplesmente matar um inimigo particularmente incômodo é grande. Além de não matar nenhum inimigo do jogo, é preciso completar missões especiais, em que o jogador se torne amigo dos três mestres que regem cada uma das três áreas principais do jogo.

Cumprir esse requisitos possibilita acessar uma área nova, descobrir grande parte da estória que está escondida no caminho normal e batalhar contra um novo mestre final. Ou uma nova forma do mestre final, já que um dos grandes antagonistas do jogo é Flowey, a flor. Um inimigo tão perverso que sabe que está em um videogame, e busca determinação suficiente para manipular o save do jogador e até mesmo fechar o jogo. O outro grande antagonista do jogo é você, que, com sua determinação e sua habilidade de salvar, pode seguir o caminho oposto da amizade e companheirismo. E jogar Undertale exatamente como se jogaria qualquer outro JRPG.

Você também pode ser um monstro e destruir todas as criaturas do jogo, o que permite alcançar um final genocida. Assim como um pacifista, ser um genocida te permite compreender aspectos específicos da estória, e encontrar desafios únicos. Para isso, é necessário matar todos os inimigos, forçando até mesmo o limite dos encontros aleatórios. A rota muda, a aparição de personagens também, e mestres ganham versões especiais. No fim das contas, o universo de Undertale tem segredos suficientes para que seja necessário explorar cada canto inúmeras vezes, com escolhas diferentes de como interagir com o mundo. Com amor e esperança, ou com raiva e destruição.

Foto do merchandise oficial de Undertale, jogo de Toby Fox, com camisas, um pôster e adesivos.
‘Undertale’ possui um leque gigante de merchandise oficial, que inclui camisas, pôsteres, buttons, adesivos, esculturas… a lista cresce ao longo dos anos, e a base de fãs se torna tão fascinada pelos pequenos detalhes do jogo que Toby Fox poderia viver tranquilo o resto de sua vida apenas com a venda desses produtos.

Promoção Falange Indie

Desde que Bastille descobriu seu novo talento para pintura, a Falange enfeitou suas paredes com quadros de nossos jogos, filmes e séries favoritos. E assim como na edição especial do Falange Inide de Shovel Knight (Yatch Club, 2014), Bastille está oferecendo um quadro personalizado para o ganhador da promoção, pintado à mão, com tinta acrílica. O ganhador irá ganhar um quadro com seu personagem favorito de Undertale. É isso aí, pode escolher!

Quem sabe você não pendura um quadro de Undyne na parede, para lembrar de encarar seus medos de frente. Ou um quadro de Papyrus, para nunca desistir de seus sonhos. Quem sabe até mesmo um quadro de Alphys, em comemoração ao nosso orgulho nerd. Sans? Toriel? Asgore? Flowey? Você decide!

Para participar, basta curtir a página de Facebook da Falange, e dizer qual é seu personagem favorito nos comentários. O vencedor será sorteado na próxima segunda-feira, dia 29 de agosto. O prêmio será enviado gratuitamente para qualquer lugar do Brasil. Não deixe de participar!

Imagem do jogo indie Undertale, que mostra uma foto com Asgore, Undyne, Toriel, Sans, Alphys, Papyrus e Frisk. Abaixo da foto, é possível ler os dizeres "The end". Abaxo disso está Annoying Dog, personagem inspirado em Toby Fox.

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Crítico de videogames, observador atento da cultura pop, viajante extraplanar e conhecedor das artes ocultas. Um membro da Falange.
  • Enzo Antun

    Undyne the greatest <3

  • Maruyama

    Eu sei q ele não tem mtos fans, mas gosto por demais do Napstablook, por me identificar com ele ^^

  • Bruno Tadeu

    Sans

  • Elisa Vitória Santos

    Sans

  • Carlos Eduardo Cunha

    Asriel, fofinho e enfrenta o passado dele para fazer o melhor para todos :3

  • PantufaAzul

    Toriel <3

  • Yasmim Abrahão

    Chara :3

  • JVictor

    Rei Asgore
    o/