Falange Indie #10 | Pony Island

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Vinheta da Mãe SerpenteOntem, Professor Lumière publicou sua resenha sobre My Little Pony – O Filme. O Professor teve uma surpresa desagradável: é difícil imaginar que pôneis possam estar associados a experiências tão bizarras e assustadoras. Todos que jogaram Pony Island, no entanto, já se depararam com questionamentos essenciais à sobrevivência humana, que nos deixam preparados para esse tipo de situação. E se Lúcifer fosse um programador de videogames que utilizasse jogos eletrônicos para roubar nossa alma? E se Lúcifer fosse um programador ruim e trapaceasse em seus jogos? E se, no fim de tudo, Lúcifer também fosse fascinado por pôneis cor-de-rosa e unicórnios? A nova edição da Falange Indie trata de um dos jogos mais brilhantes produzidos pela indústria indie. Um jogo que levanta todas as perguntas certas sobre a vida.

Pressa e perfeição

O conceito inicial de Pony Island surgiu em 2014, durante a 31ª edição do Lundum Dare. O Lundum Dare é um dos maiores game jams, desafios para produtores de jogos eletrônicos, que ocorrem em um espaço de tempo curto, de poucos dias. Durante um game jam, é necessário criar um jogo do zero, baseado em alguma temática que só é anunciada no início do desafio. Game jams normalmente também contam com restrições em relação às ferramentas que podem ser utilizadas, ou ao gênero do jogo. É uma oportunidade de equipes e desenvolvedores independentes de chamarem a atenção do público, ao criarem algo único e interessante em pouquíssimo tempo.

O Lumdum Dare 31 teve como tema central “jogo completo em uma única tela”. E foi a partir disso que Daniel Mullins desenvolveu a primeira versão de Pony Island. Na trama, o jogador está preso em frente a uma tela de arcade. Nessa tela, um minigame envolvendo pôneis se repete ao infinito. E, por algum motivo, é impossível sair dali. A única forma de parar de jogar é seguir as instruções na tela, que pedem para que você incline seu rosto e entregue sua alma. Começa, então, uma guerra de programadores. Os minigames criados por Lúcifer são injustos, impossível de ganhar. Logo, é necessário encontrar brechas no código do jogo para ganhar vantagens. Muito mais do que um jogo sobre pôneis, Pony Island se torna uma produção extremamente inteligente sobre a forma como videogames são construídos, e, no fim das contas, o que significa ser um jogador.

Imagem do jogo Pony Island, tema do Falange Indie 10. A imagem mostra um pônei em um jogo 2D de correr e saltar obstáculos.
Inicialmente, o jogo ‘Pony Island’ feito por Lúcifer é simples, e exige a mera coordenação de pular para desviar de obstáculos. Isso irá mudar drasticamente ao longo do jogo, conforme o demônio acrescentar cada vez mais elementos para impedir seu progresso.

Pony Island além dos pôneis

Diferente de tudo, Pony Island é um jogo difícil de definir pela estrutura padrão de gêneros. A princípio, o jogo funciona como um simulador. Na sua frente está a tela de computador da qual não pode fugir. E nessa tela é possível acessar diversos arquivos .exe, arquivos de programas que servem principalmente como versões cada vez mais elaboradas do jogo que tenta roubar sua alma. Também é possível entrar em contas diferentes, descobrir blocos de textos secretos, e encontrar dezenas de segredos escondidos em meio a arquivos corrompidos.

Para sobreviver a Pony Island, será necessário receber a ajuda de almas aprisionadas pelo jogo, para encontrar falhas na programação de Lúcifer. Portais místicos teleportam o jogador de aplicações para telas cheias de comandos. Essas telas funcionam como quebra-cabeças, e é preciso descobrir como cada comando funciona, e qual é a ordem em que eles devem ser agrupados de modo a permitir que armas sejam utilizadas no jogo, ou que o pônei que é controlado crie asas. Tudo de modo a superar barreiras aparentemente intransponíveis, em fases completamente injustas.

Imagem do jogo Pony Island, tema do Falange Indie 10. A imagem mostra a tela de programação que funciona como um puzzle.
Peças móveis no meio da programação geram efeitos diferentes. E é recombinando essas peças que é possível trapacear o próprio demônio.

Trapacear é a regra em Pony Island. É uma forma de sobreviver à um jogo mal construído, e que se esforça para criar um nível de dificuldade desmedido. A batalha contra Lúcifer precisa ser vencida aos poucos, na medida em que falhas mais graves podem ser encontradas, e ao mesmo tempo em que o demônio reage e implementa mudanças de última hora no sistema. É uma situação que se torna hilária por seu absurdo, e ao mesmo tempo faz com que o jogador reflita sobre o que é um jogo em si.

Autocrítica

A genialidade de Pony Island se encontra justamente em sua capacidade de fazer uma crítica a si próprio. O jogo quebra a quarta parede constantemente, e se dirige diretamente ao jogador, para além de sua personagem. Questiona os motivos que levam alguém a jogar um jogo que, no fim das contas, faz de tudo para não ser divertido. E até mesmo faz considerações morais sobre o desejo quase doentio que nós, como jogadores, temos muitas vezes quando queremos coletar tudo o que existe dentro de um videogame.

Imagem do jogo Pony Island, tema do Falange Indie 10. A imagem mostra a tela de um computador com programas de chat.
Com conversas instantâneas e regras, ‘Pony Island’ testa também a disposição do jogador de receber ordens de uma entidade desconhecida. Uma reflexão sutil sobre a natureza dos videogames.

A versão final de Pony Island levou mais um ano para ser produzida, depois do Lundum Dare. Seu lançamento no Steam ocorreu em janeiro de 2016. Esse tempo permitiu que Daniel Mullins modificasse o jogo de acordo também com sua nova plataforma, incluindo elementos como conquistas e o próprio painel do software na gameplay do jogo. É ao mesmo tempo prazeroso e assustador perceber o quão fácil é manipular ferramentas que utilizamos todos os dias para nos enganar. Uma perspectiva incômoda sobre o papel do jogador nos jogos eletrônicos, e ao mesmo tempo necessária para refletir sobre a indústria.

Envolvendo programação e metalinguagem, Pony Island possui senso afiado do que são videogames, para que servem, e como são normalmente jogados. Daniel Mullins é brilhante em sua execução de um jogo que, infelizmente, não ganhou toda a atenção que merecia. E qualquer pessoa que goste de pensar videogames, e sua própria relação com jogos, deveria tirar algumas horas de seu dia para experimentar Pony Island.

Promoção Falange Indie

Já é de costume. Se tem Falange Indie, tem promoção também. Na nossa última edição, quando falamos sobre Undertale e a subversão do JRPG, Bastille se ofereceu para pintar um quadro exclusivo para o ganhador. Carlos Eduardo Cunha já recebeu seu quadro de Asriel, em acrílico sobre tela. Dessa vez, o prêmio já está pronto para ser enviado gratuitamente para qualquer lugar do Brasil. Adesivos de Pony Island, feitos exclusivamente para a promoção. Os adesivos foram criados em vinil, o que garante sua durabilidade, e impede que o material desbote ou descasque.

Adesivos em vinil de Pony Island para a Promoção Falange Indie
Quem consegue descobrir a mensagem secreta em binário?

Além do conjunto de adesivos, a ganhadora ou ganhador dessa edição do Falange Indie leva também uma cópia do jogo Pony Island, entregue diretamente pela Steam pelo perfil da Mãe Serpente. Já tem o jogo mas quer concorrer aos adesivos? Não tem problema! A cópia do jogo também pode ser dada para algum amigo ou amiga, à sua escolha.

Para participar, basta curtir a página de Facebook da Falange, e dizer em um comentário onde você vai colar os adesivos, se ganhar. No seu caderno? Na porta do armário? Ou quem sabe você quer guardar os adesivos para sempre, e colar diretamente no videogame infernal que te espera no Purgatório? O vencedor será sorteado na próxima terça-feira, dia 16 de outubro. O prêmio será enviado gratuitamente para qualquer lugar do Brasil. Não deixe de participar!