Falange Entrevista | Hugo Canuto / The Orixas

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náusea vinhetaRedes sociais de uma maneira geral são uma grande perda de tempo com bobeira. 99% lixo e gif de gatos, mas aquele 1% de bom conteúdo vale o esforço de continuar usando.

Foi o que aconteceu semana passada comigo, quando colocaram essa imagem na minha timeline:

Hugo Canuto

QUE PARADA FODA! Orixás e Jack Kirby! Logo em seguida fui atrás de saber quem era o responsável pelo melhor mashup de 2016. Cheguei no perfil de Hugo Canuto e achei o post original:

post-canuto

A essa altura a postagem original tem 147 curtidas e 21 compartilhamentos, o que não é muito, mas a quantidade de marcações e repostagens fez com que as duas imagens literalmente rodassem o mundo.

Nesse Falange Entrevista, vou conversar com o Hugo sobre o sucesso de The Orixas – que agora tem chance de virar gibi! – além de seus outros projetos.

Vem com nós!

Náusea – Suas ilustrações tomaram a internet de assalto ao longo da semana, cara!

Hugo Canuto – Então, esse projeto é algo que venho tendo muito cuidado porque envolve respeitar crenças e visões diversas. Minha maior preocupação é ser mal interpretado, embora esteja bem feliz, porque muita gente tem dado feedback positivo. Muitas pessoas, inclusive adeptos de religiões de matrizes africanas, falando que se sentiram reconhecidas nesse trabalho.

Pois é, eu acompanhei o burburinho no Facebook e não vi ninguém falando mal. E você ganha a vida com ilustração?

Então, ganho sim. Trabalho com artes visuais, desenho, ilustração e faço coisas diversas como quadrinhos, storyboards para publicidade e murais na parede.

Hugo Canuto
Um dos murais de parede do Hugo

Eu li no seu post que essas artes de The Orixas surgiram para homenagear o Kirby – que é um monstro. 🙂

Isso, amo o cara kkk. Amo a ideia dele de unir mitologias à cultura dos quadrinhos.

Mas, você fez pra alguma exposição ou algo do tipo ou foi só pra postar mesmo?

Não, foi algo totalmente sem grandes ambições. Tinha essa ideia na cabeça há uns três anos. Fui lá e fiz.

Show

Desde 2007 venho estudando muito da cultura afro-brasileira e da cultura indígena para meu projeto A Canção de Mayrube. Então toda essa referencia estética fica aqui dentro querendo sair. rsrs

rsrs Sei como é. Fala mais desse outro projeto seu.

Então, a Canção é uma saga situada em um universo que remete ao continente americano, como a terra média ou Westeros, mas as civilizações e povos são inspirados nas culturas e mitos dos Astecas, Maias, Guarani, Iorubás, Bascos e Ibéricos. Dos diversos povos que formaram nossa cultura.

Que ideia legal, cara. E vai ser quadrinho ou livro?

Então, lancei o quadrinho no ano passado; na verdade um preview no FIQ e na CCXP 2015. Teve um retorno muito legal e decidi fazer dele um livro que estou escrevendo.

Hugo Canuto
Arte de “A Canção de Mayrube”

E já tem previsão de quando sai?

Agora com esse novo projeto dos Orixás, acho que terei de dividir o foco, mas queria para 2018. Quero ir nessa meta. O importante é ter um prazo, porque acaba me ajudando a fazer. E A Canção de Mayrube é um projeto de uma vida, sabe? Oito anos construindo, porque mitos e quadrinhos… nossos mitos precisam ser contados, mas de uma maneira além do lugar comum, do estereótipo.

Ah sim

Temos centenas de povos indígenas por exemplo, cada um uma cultura, uma fé. Imagine as possibilidades narrativas? Mas vemos como algo menor.

Sim, verdade. Tipo o que fazem com a África também. Falam da África como se fosse um país.

Isso. Putz Náusea! Ia falar a mesma coisa agora kkkk Exato meu amigo.

Kkkk Há pouco tempo entrevistei o Joe Santos, do jogo Guerreiros Folclóricos e ele bateu na mesma tecla. Você acha que os artistas daqui estão mais atentos aos elementos da cultura daqui ou ainda é uma coisa esporádica?

Sim, cara. Ainda é. Quando comecei a produzir Mayrube, por exemplo, tive uma sorte porque fui morar na Espanha para estudar e lá tive contato com todo um acervo pré Colombiano riquíssimo. Exposições, livros etc. Aqui no Brasil tem muito pouco do país e da América Latina. Isso permitiu que eu conhecesse e olhasse de outro modo para a nossa cultura.

O Joe é meu amigo irmão. Estudamos juntos na oficina de roteiro da Escola de Comunicação da UFBA

Ah é?

Sim, baiano também.

Pô, que coincidencia.

Pois é rsrs tem uma arte dele pra Mayrube.

Voltando aos Orixás, a primeira imagem que vi foi a capa do Xangô. Pirei, cara rsrs muito maneira, diferente. Fora o traço emulado do Kirby, que deu um tempero a mais no desenho.

Hugo Canuto

É, eu já tenho muito dele (do Kirby), porque gosto de lidar com a estética mítica daquela maneira.

Mas a primeira que você fez foi a dos “Vingadores”, né?

Isso, comecei com aquela dos vingadores Orixás, como uma homenagem mesmo. Daí teve um retorno muito legal, muito amplo e resolvi fazer o Xangô.

E a repercussão?

Cara, até eu me assustei sabia? Rsrs As pessoas pediram muito Xangô. Diziam “é o nosso Thor”. Sabia que vivemos em um contexto onde a cultura Afro Brasileira é sub representada na mídia.

Então eu sabia disso tudo e a intenção era homenagear essa cultura dentro do meu trabalho, de uma linguagem pop que é algo mundial, algo que todos estão inseridos e saiu o Xangô. A partir disso, fiz aquela capa dos Vingadores.

E quem é quem naquela capa?

Da esquerda para a direita: Oyá, Ossain, Xangô, Oxaguiã e no meio, Ogum.

E você também comentou no Facebook que agora animou de fazer um gibi. Em que pé anda essa ideia?

Por enquanto estamos discutindo. A ideia é lançar ano que vem via Catarse, mas estou pesquisando muito para escrever, conversando com outros escritores, mas deve ser uma hq pequena, de 24 páginas. Talvez, se o Catarse der certo, 48 páginas.

Falando em Catarse: de zero a dez, qual a chance de viabilizar o gibi em banca de jornal?

Zero rsrs

kkkkkk poxa…

É um modelo que não funciona para independentes. É outro nicho, outra escala. Com uma editora grande e organizada por trás, talvez desse certo.

Pergunto porque eu sou um defensor da banca. Se não fosse banca eu não tinha virado leitor de gibi.

Então, é mais complicado isso. É algo que nem nos EUA eles souberam resolver direito. O país é muito grande, mas no meu caso, que sou independente, o sistema de relacionamento com o público é muito importante, o corpo a corpo e participar dos eventos também, mostrar nosso trabalho. Tenho amigos que eram fãs.

Também comecei por bancas. Tinha uma perto de casa que me fazia comprar todo dia kkkk Foi a época de maior consumo de gibis. Muito bom!

Não é? Uma pena que esteja cada vez mais difícil se colocar ali. O gibi saindo ele vai manter o traço Kirbyano ou você vai por outro caminho mais autoral?

Existe a proposta de ter uma estética que remeta aos gibis antigos. Mas vai ser no meu traço. É quase impossível fazer uma hq emulando outro artista sem que saia um desastre kkkkk

Kkkkk pode crer.

Seria loucura. Só o phil Jimenez que consegue ser próximo ao George Perez e ao mesmo tempo ele mesmo.

Hugo, é isso. Quer deixar um recado pras Falangeiras e Falangeiros?

Sim, sim. Espero que continuem acompanhando esse processo criativo. Em breve vamos falar mais do projeto e se quiserem conhecer mais da Canção de Mayrube, do quadrinho, do projeto, enfim, podem acessar por aqui.

[Jô Soares mode on] Eu conversei aqui com Hugo Canuto e essa foi mais uma edição do Falange Entrevista. [Jô Soares mode off] Você pode ler as edições anteriores aqui. Até a próxima, gente bonita <3