Conheça DEADPOOL: de plágio descarado a estrela de cinema.

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Como são as coisas, né? Imagina se eu volto no tempo pra 1991 e chego dizendo que o filme do Deadpool acabou de estrear no cinema – e digo mais – que não é ruim?

Mas claro, Náusea! o Deadpool é massa! Ele fala com a gente, mata geral e faz piadinha!

Pois é, jovem. Mas na minha época aquilo lá era tudo mato.

É polêmico, mas vende pra caralho

Esse era Rob Liefeld 25 anos atrás: um dos grandes da indústria de quadrinhos norte americana, auto didata e menino prodígio contratado pela Marvel e posto pra cuidar da revista d’Os Novos mutantes, um título que só vendia o suficiente para não ser cancelado, ainda em 89.

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The New Mutants #86 – A estreia. Essa capa foi uma homenagem à “The Amazing Spider-man #2”, do Steve Ditko. Joguem no Google.

Os Novos Mutantes se tornou um dos títulos mais vendidos da Marvel e durou até a edição 100, quando foi substituído no auge da sua popularidade pela X-Force, que vendeu absurdas 4 milhões de cópias na edição de estreia e foi um dos vários fatores que levaram à fundação da Image Comics um ano depois, dando início a uma época que hoje é notória por ser pragmática ao extremo e não esquentar muito com a originalidade das coisas.

E pragmatismo era a maior qualidade de Liefeld naquele tempo. Qualidade sem aspas mesmo, porque ninguém parecia preocupado com grandes reflexões sobre a vida, o universo e tudo mais, ainda mais nos quadrinhos de super herói. No breve período entre 89 e 91, Liefeld fazia, as pessoas compravam como se não houvesse amanhã e ponto final.

Caraca…

Pois é.

X-Force
X-Force #1 de 1991 – Não é pouca merda não.

Beleza, mas meu foco é a edição 98 d’Os Novos Mutantes, onde Liefeld apresentou ao mundo um esboço daquele que hoje é seu personagem mais conhecido: DEADPOOL, senhoras e senhores!

Show!

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Primeira aparição de Deadpool n’Os Novos Mutantes #98: detalhe para a anatomia estilizada que Liefeld utiliza, remetendo à escola Maneirista de El Greco e Ticiano.

Liefeld teve a ideia da história, onde um mercenário que havia sido contratado por outro vilão invade a sede dos mutantes pra matar o Cable. Fabian Nicieza, que era o novo escritor da série, fez roteiro e diálogos em cima desse argumento e pronto.

“Eu tinha que fazer meus próprios Homem Aranha e Wolverine. Isso é o que Cable e Deadpool eram pra ser, meu próprio Wolverine e meu próprio Homem Aranha.” – Rob Liefeld

Nesse ponto eu tenho que te dizer que a Marvel tinha começado a pagar royalties aos artistas pela criação de novos personagens. Então, mesmo que já existisse um tipo na Marvel que se encaixasse na ideia do Liefeld, ainda assim era mais jogo criar um novo e passar no financeiro pra pegar o cheque.

E quando eu digo “criar” eu não falo de uma história de origem, uma mini biografia e nem mesmo uma identidade secreta. Bastava um uniforme maneiro e um “nome de herói”, que geralmente consistia em duas palavras aleatórias formando uma nova, tipo BADROCK, RIPCLAW, DEATHBLOW e claro, DEADPOOL. Eram tempos muito menos complicados.

Caraca…

Pois é.

Nicieza não era tão pragmático quanto Liefeld – ou talvez tenha ficado com medo de um processo, nunca saberemos. Então, quando viu o rascunho do personagem pela primeira vez ele sacou que Deadpool era parecido demais com o Deathstroke, da concorrente DC Comics (no Brasil, Exterminador).

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Coincidência? Fala tu.

É aquilo: se você copia e fica quieto, é plágio. Se copia e assume, vira homenagem. Inclusive foi “assumindo a homenagem” que Alan Moore ganhou um prêmio Eisner em 97 com o “Superman do Liefeld”, o Supremo.

Deadpool Supremo

Ih alá!

Pois é, mas isso é assunto pra depois.

Então Nicieza ligou o foda-se e inventou que o nome verdadeiro do Deadpool era Wade Wilson, uma referência a Slade Wilson, nome verdadeiro do Exterminador. E vida que segue, parceiro!

Liefeld e Nicieza foram tornando as aparições do Deadpool cada vez mais frequentes na revista da X-Force, até que ele ganha sua primeira mini-série (The Circle Chase-93). Escrita por Nicieza e desenhada pelo Joe Madureira, fez sucesso o bastante para engatilhar uma outra (Deadpool-94) desenhada pelo Ian Churchill e escrita por Mark Waid, ironicamente um roteirista conhecido por preferir heróis clássicos e maniqueístas. Tempos depois Waid admitiu que aceitou o serviço porque não sabia que se tratava de um vilão.

Oi?

Sim, porque até então o Deadpool era o “ninja-mercenário-assassino-fodão-genérico” que Liefeld tinha imaginado. Mas o lance é que essa sinopse rasa do personagem, que poderia ser um erro fatal, acabou se tornando sua maior qualidade, porque deu total liberdade criativa para os artistas que vieram depois e transformaram Deadpool no fenômeno que ele é hoje.

Mas quem veio depois?!

Calma, jovem. Eu vou chegar lá.

Ó o jogo virando, ó!

Pois é, não tem aquele ditado que diz que “pai é quem cria”? Então jovem, se hoje você se diverte a valer com as historinhas do Deadpool agradeça a um só cara: Joe “fiz o que pude” Kelly

Deadpool Joe Kelly

“Com Deadpool nós podíamos fazer tudo que queríamos porque todo mundo esperava que a revista seria cancelada nos próximos cinco segundos, então ninguém estava prestando atenção.” – Joe Kelly

Kelly percebeu que uma saída digna para o personagem poderia ser partir para a galhofa de vez e foi muito feliz na sua escolha. As histórias ganharam o tom de “comédia de ação” e tudo que define o personagem até hoje, como as piadas e situações inusitadas, a “quebra da quarta parede” e uso de metalinguagem, com Deadpool tendo consciência que está num gibi e até falando diretamente com os leitores; tudo isso, jovem, começou nessa fase.

Massa véio!

É, ficou legalzinho mesmo.

Liefeld já disse em entrevistas que Deadpool já tinha uma história de origem – criada por ele – desde sua concepção. Mas foi só nessa época que ela foi usada para associar ainda mais o personagem aos X-Men: Wolverine era conhecido como “Arma X”. Liefeld inventou que esse “X” na verdade era “10”, o que queria dizer que outros nove mutantes antes de Logan também haviam sido cobaias de experimentos genéticos. Wade Wilson sofria de câncer terminal e foi convencido a participar com a promessa de que seria curado, o que não aconteceu. Mas seu corpo ganhou a capacidade de se regenerar muito rapidamente, o que acaba mantendo suas células doentes controladas mas afeta seu cérebro de maneiras imprevisíveis.

Isso aí durou até o Número 69, quando numa grande cagada editorial a Marvel resolveu recomeçar do zero tudo que envolvia o universo dos X-men, inclusive refazendo alguns personagens. Nessa época o Deadpool foi rebatizado como Agente X e teve sua origem recontada. Não vou me alongar nisso porque o post já está grande demais e eu quero almoçar.

Ok

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Durou pouco e até hoje não entendi porque fizeram.

Só dois anos depois que ele voltou a aparecer do jeito que era e escrito pelo Nicieza novamente, na revista Cable & Deadpool (2004). Em 2008, novamente um título próprio. A essa altura Deadpool já existia há treze anos, vendia muito bem e já pipocava gente fazendo cosplay dele em eventos, sendo que a Marvel nunca tinha pensado nele como um dos seus personagens principais. Quer dizer, a coisa tomou proporções cada vez maiores graças a uma base de fãs dedicada mesmo, coisa bem difícil de acontecer nos quadrinhos dos anos 2000.

Mas também, quando a Marvel finalmente percebeu o que tinha nas mãos, começou a enfiar o Deadpool em tudo que faziam, tipo o Wolverine uma década antes ou o Batman na DC até hoje.

Show!

Deadpool, Deadpool, Deadpool. E se reclamar tem mais.

Começou a aparecer nas mega sagas da Marvel, como Invasão Secreta

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Teve Marvel Zombies

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Teve até Deadpool Corps, sacaneando Green Lantern Corps da DC

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Teve também pelo selo Marvel Max

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Quer dizer, quem não tinha ouvido falar dele ainda nesse ponto, ouviu. E a popularidade do personagem atingiu um nível inacreditável se você considerar como tudo isso começou e não demorou até que ele invadisse outras mídias.

Tudo começou com o filme X-Men Origens: Wolverine (2009). Anunciaram que o filme teria a participação de Deadpool, interpretado por Ryan Reynolds e os fãs molharam as calças de ansiedade. Mas aí a Fox fez isso.

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Foi uma bosta? Foi. Mas essa aparição encheu os fãs de esperança  e gerou um burburinho tão grande no Twitter e outras redes sociais que a Fox anunciou um filme solo do Deadpool logo após a primeira semana de lançamento de “X-Men origens”, graças a pressão da internet.

Tudo bem que depois a Fox respirou fundo, recuou e quase engavetou o projeto de vez. Mas no meio disso tivemos dois jogos: Marvel vs Capcom (2010)

E Deadpool (2013):

Que atingiram em cheio as crianças, talvez a única faixa de público que faltava alcançar.

Aí não deu mais pra adiar. Com Ryan Reynolds disponível e doido pra apagar de vez o fantasma do péssimo Lanterna Verde (2011)

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e a Fox bancando a censura 18 anos, o filme finalmente saiu e ficou ó

bem legal.

Mesmo?

Mesmo.

Show!

Beleza, eu até entendo a implicância que os leitores mais velhos têm com o Deadpool. Ele nasceu nos anos 90, época que grande parte dessa galera simplesmente desistiu de quadrinhos de heróis por que parecia que Marvel e DC também haviam desistido. Acontece que na década seguinte já tínhamos um negócio chamado internet, que na minha opinião foi a principal responsável por todo esse sucesso. Muita gente teve seu primeiro contato com o Deadpool por meio de memes e montagens no Tumblr, nos fóruns e por aí vai, independente de consumirem quadrinhos ou não. E convenhamos, as histórias mais recentes do personagem aliam humor e violência gráfica de um jeito irresistível para pré adolescentes. Eu sei disso porque também já fui um, mas na minha época a bola da vez era o Lobo.

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Então Jovem, é isso. Se divertiu tanto quanto eu?

(*.*) Claro, Náusea! Mas você esqueceu do principal…

(oO) que seria?

(¬¬) As lições sobre a vida…

Porra, esqueci!

Náusea e as Valiosas Lições Sobre a Vida

Hoje aprendemos que…

1 – Haja o que houver, crie personagens. Não hesite. Não pense muito. Apenas crie personagens.

Mas…

Crie personagens.

Ok.

2 – Rob Liefeld é um dos maiores nomes da industria de quadrinhos de todos os tempos. Sim, eu sei que você desenha melhor que ele, mas você é assalariado e ele limpa a bunda com notas de Euro, graças aos personagens que ele criou, provavelmente enquanto cagava.

Engole o choro.

Pára que tá feio.

Essa eu vou levar pra minha vida.

E faz muito bem, jovem.

3 – Deadpool hoje, sozinho, é maior que grande parte da DC e da própria Marvel combinadas.

Sério?!

Sim. Deadpool ficou em 182º lugar no ranking de maiores personagens de quadrinhos de todos os tempos da revista Wizard. Parece pouco, mas ficou na frente de Colossus, Fanático, Punho de Ferro, Ultron, Brainiac…

45º lugar na lista de 50 maiores personagens de quadrinhos da revista Empire e 31º na lista de 100 maiores heróis dos quadrinhos da IGN. Nem vou dizer na frente de quem ele ficou.

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Porra…

Pois é.