Cisne Negro (Black Swan) | Discutindo o gênero do horror

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Vinheta da Mãe SerpenteAo longo dos últimos dez dias, a Mãe publicou diariamente, aqui na Falange, resenhas de filmes ligados ao horror, em homenagem ao Mês das Bruxas. O filme escolhido para virar texto hoje é Cisne Negro (Black Swan), que chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme de 2010. Uma resenha, então, é desnecessária; muito já foi dito sobre Cisne Negro, e a maior parte das pessoas que gostam de cinema já puderam assistir ao filme. A retomada de Cisne Negro, então, serve para reavivar a discussão que o filme levantou. Afinal, Cisne Negro é um filme de horror? O que pode ser considerado um filme de horror? Qual a diferença do horror e do suspense, também chamado de thriller? E, no fim das contas, a divisão de gêneros é tão precisa?

Uma questão de gênero

Gêneros são uma ferramenta importante na classificação do trabalho artístico. Mais do que uma ferramente de críticos, gêneros servem para que um grande público seja capaz de escolher de forma mais consciente o que deseja consumir, ou não. Se um filme é classificado como Comédia, se espera que ele tenha o objetivo de fazer seu público rir. Romances contam estórias de amor. Filmes de Ação focam no conflito direto, e quanto mais socos e explosões, melhor. E assim como já é natural para o público compreender o que cada gênero, em geral, significa, se torna natural também querer colocar cada filme já assistido em seu devido lugar.

Quanto mais o cinema evolui, mais fácil se torna misturar linguagens diferentes, e combinar elementos de gêneros distintos. Subgêneros foram criados justamente para dar conta disso. O recente Doentes de Amor (The Big Sick), por exemplo, é ao mesmo tempo uma Comédia e um Romance, o que o classifica como uma comédia-romântica. Sua alta carga emocional, capaz de sensibilizar o público às lágrimas, também poderia enquadrar o filme dentro de um Drama. E apesar da alta carga de violência, todo filme de Tarantino também aposta alto no absurdo para fazer graça.

A mistura de gêneros é extremamente positiva, pois significa que o cinema se reinventa, e busca novas formas de contar estórias. Significa que ao invés de uma arte estagnada, formatos diferentes têm espaço de surgir, criar novos gêneros e subgêneros, e subverter fórmulas já consagradas. Ao invés de um guia que deve ser seguido à risca, gêneros deveriam ser apenas formas gerais de orientar o público quanto ao objetivo maior do filme. O que significa que não se pode esperar, como amante do cinema, que as regras clássicas de um determinado gênero sejam sempre claras, nem sempre seguidas.

O problema surge justamente quando ao invés de direcionamento os gêneros se tornam uma barreira. E isso é algo que acontece, com frequência, com o horror. O horror é, muitas vezes, considerado um gênero menor, ou menos importante. E mesmo cineastas hesitam em ter seu nome associado ao gênero. O público, de modo geral, espera que filmes de horror se limitem a um entretenimento descompromissado, um espetáculo de sangue e mortes e nada mais. E embora essas sejam características importantes do gênero, não é possível limitar o horror a isso. Contudo, por conta do preconceito com gênero, é comum classificar um filme de horror que ganhe a atenção da crítica por sua inovação como um filme de suspense, também chamado de thriller. Uma estratégia que dificulta ainda mais a separação entre esses dois gêneros.

Ponta do assento, recosto da cadeira

É fácil identificar um filme de horror quando monstros com sede de sangue povoam a tela. Da mesma forma, é fácil saber que um filme sobre um detetive que persegue um assassino em série será um thriller. A divisão entre sobrenatural e real, no entanto, não serve como determinante para diferenciar o horror do suspense. Jogos Mortais (Saw), por exemplo, é uma famosa franquia de horror, e não há nada de sobrenatural nos assassinatos que se sucedem. Mesmo clássicos do gênero, como Sexta-Feira 13 (Friday the 13th) e Halloween construíram seus primeiros filmes em torno de assassinos humanos. O que faz com que esses filmes, então, estejam no campo do Horror, e não do Suspense? Todos os filmes citados têm seu foco em mortes explícitas e brutais, e não no mistério que envolve essas mortes.

Cena do filme Saw, ou Jogos Mortais. A cena mostra a marionete Billy the Puppet.

To thrill, em inglês, significa excitar. O Thriller então, ou o Suspense, é uma classificação designada para a descarga de adrenalina e excitação que um filme provoca ao instigar o espectador a fazer parte da trama, e descobrir seus detalhes junto das personagens na tela. Faz parte do Suspense criar estórias que envolvam algum tipo de mistério, que será solucionado, um quebra-cabeças que pode ser resolvido ao longo da duas horas, e que convida o público a se inclinar na ponta do assento, com sua atenção cada vez mais aguçada pela necessidade de descobrir mais detalhes.

Já o Horror é o lar daquilo que é chocante. Não só o medo é importante para o gênero, mas também o nojo, e a extrema angústia causada pelas cenas que cruzam nossos olhos. Um bom filme de horror não precisa ser necessariamente assustador, mas precisa causar desconforto suficiente para que seguir até o final da experiência seja um esforço. Um filme de horror aflora o instinto de desviar os olhos da tela, usar as mãos para bloquear imagens, e afundar no recosto da cadeira para fugir de visões desagradáveis.

Não é o sobrenatural que serve de régua para essa diferenciação, mas objetivo da produção. É por isso que um filme como O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999) é um representante mais adequado do Suspense, enquanto Predadores do Amor (Hounds of Love, 2016) está mais ligado ao campo do Horror. Sim, O Sexto Sentido possui fantasma. Mas o objetivo do filme não é chocar, mas instigar o público a desvendar o mistério central da trama. Da ponta de seus assentos. Ao contrário, Predadores do Amor trata de um casal de assassinos, mas não foca na investigação de um crime, e sim no crime em si. O público, então, sofre junto da vítima. Do recosto de suas cadeiras.

 

Cena do filme O Sexto Sentido, ou The Sixty Sense, que mostra um garotinho com medo deitado em uma cama e enrolado no cobertor.

Nem é preciso ressaltar, então, o quanto esses dois gêneros estão ligados, e o quanto filmes podem, ao mesmo tempo, utilizar recursos de ambos. Isso não significa que todo Horror seja ao mesmo tempo um Suspense, nem o inverso. Nem que um desses dois gêneros seja subalterno a outro. Significa apenas que, ao lidar com a adrenalina humana, filmes podem ter a intenção de instigar e chocar a audiência simultaneamente, e por isso nem sempre existe uma linha divisória muito clara. Principalmente quando o tema do filme é a mente humana.

Cisne Negro é um filme de horror?

Cisne Negro é oficialmente classificado como um filme de Suspense. Muito já se discutiu essa classificação, mas a Mãe sente a necessidade de tratar desse assunto mais um pouco. Cisne Negro é um filme de Horror, e não um filme de Suspense. Não existe um mistério a se resolver, ou uma mensagem revelada. Darren Aronofsky não esconde que os olhos que se viram em quadros, ou as imagens no espelho que se movem de maneira diferente, são fruto da mente perturbada de Nina (Natalie Portman). Não existe, então, a intenção do filme de excitar seu público rumo a um desfecho surpreendente. Toda a trama segue um caminho previsível, e nem por isso menos chocante.

Imagem do filme Cisne Negro, ou Black Swan. A imagem mostra um close do rosto de Natalie Portman refletida muitas vezes em um espelho com várias superfícies.

A pressão de sua posição de destaque no balé reativa os distúrbios mentais de Nina, e conforme a narrativa se desenrola, as cenas criadas por Aronofsky se tornam cada vez mais recorrentes, e cada vez mais chocantes. A pele ao lado de uma unha que se transforma em um ferida profunda, as pernas arqueadas da personagem, as penas que recobrem seu corpo. O Horror é o gênero do bizarro, do grotesco, do desconfortável. E a trágica estória de Nina, e de como a inveja e intimidação constante afeta a saúde mental, depende da capacidade de afetar o público de uma maneira característica ao Horror. Cisne Negro não é um filme feito para rir, nem para chorar. É um filme minuciosamente construído para te fazer sentir desconfortável.

O gênero do Horror é um campo de experimentação fantástico para o cinema. Talvez o lugar onde se possa criar de forma mais livre, e utilizar diferentes técnicas para alcançar resultados cada vez mais variados, embora em torno de um mesmo objetivo. É cada vez mais comum, nos últimos anos, vermos filmes fantásticos que expandem as barreiras do gênero. Mais do que em qualquer outro tipo de filme, o Horror tem se tornado sinônimo de inovação. Temos que parar de desmerecer o Horror, parar de considerar que a classificação do Horror é um demérito. O Horror possui uma potência belíssima, e reconhecer essa potência, e investir nessa potência, é elevar a Sétima Arte como um todo.