A Cidade Mais Fria | O quadrinho que inspirou Atômica

0

Mãe SerpenteEm poucos dias, Atômica (Atomic Blonde) chega aos cinemas, como a mais nova promessa do cinema de ação. Não é para menos, já que a equipe do filme é a mesma envolvida com a franquia John Wick. Uma série de filmes extremamente bem sucedida em mostrar o impacto que o cinema de ação pode ter sem o uso excessivo de cortes e jogos de câmera. Mas, para além das cenas de ação, Atômica tem o potencial de ser também um excelente filme de espionagem. Isso porque o roteiro é baseado em A Cidade Mais Fria (The Coldest City, 2012), escrito por Antony Johnston e ilustrado por Sam Hart.

A Cidade Mais Fria

A trama de A Cidade Mais Fria vaga entre Berlim e Londres. O ano é 1989. Uma agente do M16 é convocada por seus superiores a esclarecer os detalhes de sua última missão. Uma missão que se passou em meio à queda do Muro de Berlim, que levaria ao fim da Guerra Fria. Lorraine Broughton, então, precisa recontar os eventos que presenciou, e o panorama que se forma é de uma cidade repleta de espiões. A CIA, o KGB, serviços de inteligência franceses, italianos, poloneses. Berlim é o centro do mundo da espionagem em 1989, e é em meio ao caos e à desconfiança que Lorraine Broughton precisa encontrar um documento secreto. Um simples pedaço de papel, mas que contém a lista de todos os agentes duplos em Berlim. Todos, independente de sua nacionalidade. Um pedaço de papel que tirou a vida de um agente que agia em Berlim, uma morte que também precisa ser solucionada.

O grande público já está acostumado com estórias de espião. É fácil prever que, em algum momento da trama, traições irão acontecer, e alianças estranhas podem se formar. Resta, então, ao leitor ou espectador, prestar atenção aos detalhes, e tentar se antecipar às viradas de roteiro. A Cidade Mais Fria é um livro extremamente bem sucedido em manter o suspense porque sua proposta narrativa foi realizada para quebrar qualquer expectativa do leitor. A estória começa do final, quando a missão já foi concluída e Lorraine retornou a Londres. Elementos chave da estória, então, são antecipados pela conversa da personagem com seus superiores, antes de serem explicados por flashbacks.

Uma página inteira de A Cidade Mais Fria, ou The Coldest City, graphic novel de Antony Johnston e ilustrada por Sam Hart. A cena mostra Lorraine Broughton, a protagonista, atirando contra um homem misterioso.
Uma página inteira de ‘A Cidade Mais Fria’.

A oscilação do tempo de narrativa faz com que seja mais fácil para Antony Johnston manipular o roteiro a seu favor. E A Cidade Mais Fria consegue transmitir um cenário rico e realista do mundo da espionagem. Sem ferramentas mirabolantes, nem combates impressionantes. Apenas mentirosos, preparados para manipular uns aos outros e obter as informações que desejam. É um clima que dificilmente será resgatado no filme, já que a ação tende a se tornar o eixo central da obra. E pelos trailers, pouco do visual original também será respeitado.

Neve e sombras

A arte que Sam Hart escolheu para melhor representar A Cidade Mais Fria é completamente baseada em preto e branco. A disposição de traços cria a impressão de formas, e o leitor completa as lacunas de acordo com seu próprio ritmo de leitura. É um estilo similar àquele que Frank Miller utiliza em sua antologia de A Cidade do Pecado (Sin City). Longe de ser uma escolha aleatória, o branco e o preto representam a realidade imediata da espionagem em Berlim. O branco da neve que cobre a cidade, e deixa todas as relações mais frias. O preto das sombras, que borram feições e criam ambientes soturnos.

Capa original de The Coldest City, ou A Cidade Mais Fria, graphic novel de Antony Johnston e ilustrada por Sam Hart. A capa mostra uma silhueta feminina atrás de arama farpado.
A capa original de ‘The Coldest City’. As novas edições já vem estampadas com imagens do filme, como é comum acontecer com adaptações.

O efeito da arte final, cheio de lacunas e borrões, também reflete de forma direta um ambiente propício para mudanças bruscas de lealdade, e tentativas de assassinatos. A própria feição de personagens, com seus traços mais sugeridos que determinado, indica pessoas preparadas para assumir uma aparência distinta enquanto buscam completar sua missão. É extremamente importante que a arte de uma boa estória em quadrinhos não seja apenas uma ilustração, mas contribua para a construção do sentido pretendido. E, felizmente, é isso o que ocorre em A Cidade Mais Fria. Já  Atômica mostra um cenário muito mais vivo e iluminado, o que serve de mais um indicativo de que a adaptação estará bem distante da obra original. Ao menos as características de sua personagem feminina forte parecem persistir.

Poder e Sensualidade

A ideia de um protagonismo feminino é essencial para a trama de A Cidade Mais Fria. É comum, em produtos culturais diversos, reduzir a mulher a traços considerados femininos, como a empatia e a doçura. A tentativa de quebrar o clichê muitas vezes faz com que a ideia de uma mulher forte necessariamente precise passar por uma personagem ligada à brutalidade e violência atribuídas ao caráter masculino. A força de uma mulher, no entanto, não precisa apagar sua sensibilidade. Lorraine Broughton é uma espiã, mortal e astuta. Mas possui também uma sensualidade aflorada, que ela utiliza a seu favor. É um arquétipo similar á representação mais recente da Mulher-Maravilha no cinema. O poder feminino não precisa, obrigatoriamente, apagar traços considerados femininos. Personagens femininas têm o direito de serem ambíguas e múltiplas.

E é assim que Lorraine Broughton se coloca. Capaz de sobreviver em meio ao risco da espionagem. Agravado ainda pelo fato de que ela é constantemente subestimada por colegas homens. Tendo a consciência de que a subestimam para utilizar isso como uma arma a seu favor. Lorraine é uma personagem capaz de conduzir a trama sem esforço, e até as últimas páginas sua obstinação é o que guia o leitor pelas muitas reviravoltas de A Cidade Mais Fria.

Imagens lado a lado da personagem Lorraine Broughton. À esquerda, o desenho do quadrinho A Cidade Mais Fria, ou The Coldest City. À direita, a imagem da atriz Charlize Theron.
Em ‘Atômica’, a personagem de Lorraine Broughton é interpretada por Charlize Theron.

A Mãe ainda não sabe como será o resultado de Atômica. E provavelmente terá que esperar mais alguns dias para saber. Semana cheia, com Before the Storm (Deck Nine) e Absolver  (Sloclap) nos videogames. E Inumanos (Inhumans) no cinema. Mas assim que conseguir assistir Atômica, podem esperar uma resenha completa aqui na Falange. Por hora, fica a recomendação de A Cidade Mais Fria. A leitura é excelente para qualquer fã de espionagem, ou para qualquer fã de quadrinhos que não se resumam aos super-heróis. E a melhor hora para ler A Cidade Mais Fria é agora, já que uma versão traduzida chegou ao Brasil pela primeira vez, publicada pela DarkSide Books. Ou, para aqueles que não consideram o inglês uma barreira, sempre é possível recorrer à Amazon.