Anima Mundi 2017 | O que esperar esse ano?

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vinheta Mãe Serpente BastilleDesde 1993 é regra: todo ano tem Anima Mundi. O Festival Internacional de Animação do Brasil é a maior mostra de animações das América, e a segunda maior do mundo, só atrás do Festival de Annecy, na França. O evento é extremamente importante para mostrar o valor da produção brasileira de audiovisual, assim como dar a oportunidade para produtores de todo o mundo exibirem seu trabalho em terras tupiniquins. Infelizmente o Anima Mundi se resume às cidades de Rio de Janeiro e São Paulo, mas quase todos os curtas exibidos na competição podem ser encontrados online. A Falange foi convidada para uma sessão especial do Anima Mundi 2017, e pôde ver de primeira mão alguns dos filmes que estarão disponíveis a partir do dia 14, no Rio, e do dia 26 em São Paulo. (Vai ser no Rio primeiro… Náusea, prepare uma cama extra no seu barraco.)

Bonjour! Bastille, aqui. Eu acompanhei a Mãe nessa amostra durante a qual foram exibidos 12 curtas das categorias competitivas – “Curtas” e “Infantil” – e mais 9 de outras categorias – “Convidados”, “Sessão Petrobrás” e “Foco Canadá”. Iremos aqui falar das animações mais marcantes e dos temas principais abordados.

Vida, morte e Anima Mundi 2017

Não faltaram considerações sobre a existência na mostra especial. Primeiro, na categoria competitiva “Curtas”, tivemos uma produção completamente produzida por modelagem digital que tem uma perspectiva diferente sobre o apocalipse zumbi. Em Sub-Humano (Less Than Human), quando a cura para o desejo assassino de zumbis é encontrada, os mortos-vivos são isolados em campos de refugiados. Uma equipe de reportagem, então, tem a tarefa de descobrir se os zumbis podem ou não serem ressocializados. É uma ideia original, com uma animação de qualidade, mesmo que a modelagem não apresente grandes novidades estéticas.

Imagem de um zumbi bebendo algo de uma lata, dentro de seu apartamento. Less Than Human (Steffen Bang Lindholm) Anima Mundi 2017
Em Sub-Humano (Less Than Human) Zumbis tentam retomar sua vida normal depois da cura, enquanto humanos ainda temem seus instintos agressivos.

Em outro excelente competidor dos “Curtas”, Espaço Negativo (Negative Space), um homem tenta lidar com a morte de seu pai a partir das atividades cotidianas que os dois realizavam juntos. No caso, a arrumação de malas de viagem. O terceiro competidor dessa categoria, Sob o Véu da Vida Oceânica, é brasileiro, é foi, de longe, o favorita da Mãe para a competição. O vídeo se constrói como um documentário sobre a vida marinha, e segue uma espécie fictícia consciente que tem apenas seis minutos de vida. As analogias com a vida humana são inúmeras, desde a certeza da morte e a incapacidade de lidar com essa certeza, a sensação constante de falta de tempo, a tentativa de encontrar no amor uma forma de completude. Tudo com situações hilárias e sarcásticas.

Outros dois curtas tiveram a morte como tema. Um deles é Como Lidar com a Morte (How to Cope with Death), da categoria “Sessão Petrobrás”. O filme trata do assunto de forma bem direta, com uma mulher idosa e solitária que, quando visitada pela morte, demonstra muita habilidade física para combatê-la.

O outro se insere na categoria “Convidados” – venceu o Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação de 2001 – e foi o curta ligado à vida e à morte que mais me emocionou: Pai e Filha (Father and Daughter). As escolhas estéticas são simples e lindas: branco e diferentes tons de marrom, exceto pela roupa da filha, que possui um toque de azul, contrastando com o cenário. E o assunto é tratado de forma muito delicada e apenas com imagens (a fotografia é ótima) e música (o que suspeito ser piano) – sem falas. Trata-se de um pai que, no fim de uma caminhada à bicicleta, deixa sua filha. E esta volta para o lugar onde o viu pela última vez na esperança de encontrá-lo de novo. Durante dias. Meses. Anos. Até que a vida se passou e é a vez dela de ir embora. E finalmente encontrá-lo.

Para quem se interessou e mora no Rio ou em São Paulo, o diretor Michael Dudok de Wit dará entrevistas durante o evento – dia 22 de julho, às 20h no Cine Odeon no Rio de Janeiro, e dia 28 de julho, no mesmo horário, na Caixa Belas Artes em São Paulo.

Anima Mundo 2017 e diversidade estética

Parte do que faz o Anima Mundi um festival tão interessante é poder ver que existem muitas formas diferentes de fazer animação. Como com o curta brasileiro Em Crise, que também está na competição “Curtas” e utiliza fotografias para montar um stop-motion. Mais uma experimentação do que uma narrativa em si, é instigante ver como se utiliza o cenário de um escritório para brincar com a percepção. Chama muita atenção também Macaco Albino, de novo um brasileiro na competição de “Curtas”. Com um traço simples e cartunesco, que lembra as tirinhas encontradas no jornal, o protagonista, Macaco Albino, procura uma pimenta que seja forte o suficiente em um restaurante. Com muito bom humor e referências à cultura pop, Macaco Albino também tem ligação dieta com os hábitos das lanchonetes do Sudeste brasileiro, com seu molho de pimenta e sua pimenta da casa.

Ao Entardecer (Late Season – Nachsaisontambém está concorrendo na categoria “Curtas”, e trata de uma bela e velha história de amor, ao som de uma música em francês sobre o mesmo tema. Um casal de velhinhos, já muito acostumado com a presença um do outro, simplesmente se enterra na monotonia do cotidiano. Mas um evento na praia (envolvendo caranguejos-ermitões…) os ajuda a reencontrar a paixão e o romantismo de antes. A animação tem a característica de ser feita toda de papel, e de acentuar os traços dos personagens, principalmente traços associados à velhice.

Na mesma categoria, Além dos Livros (Beyond the Books) se destaca pela sua qualidade técnica. O filme apresenta gráficos dignos de produções de grandes estúdios. O filme tem como cenário uma imensa e belíssima biblioteca, em que uma estante cai, o que decorre num efeito dominó que leva à sua destruição. É possível ver nisso o fim do livro físico, com o avanço tecnológico que permite ler quase qualquer título em uma tela. Mas apesar da beleza visual, fica uma impressão de trabalho inacabado no final do filme, que não tem muita preocupação com a narrativa.

Por fim, Caçador de Estrelas (Starhuntersconcorre na categoria “Infantil” do Anima Mundi 2017. O curta trabalha com sombras, e apresenta um astronauta que é perturbado por um caçador durante sua observação das estrelas. Um clichê de caçador, diga-se de passagem. Curioso com a admiração do garoto astronauta, o caçador acaba por tomar seu lugar na frente do telescópio. E, maravilhado pelo que vê, até se esquece de sua atividade inicial, e deixa seu lugar para um coelho… Achei bem bonito visualmente, assim como a mensagem de que, frente à beleza e grandeza da natureza, mesmo que por um momento, todos somos iguais, sem diferenciação entre predador e presa.

Em uma linha completamente diferente de animação, Sobre uma Mãe (Pro Mamu – About a Mother) se inspira na arte africana. Os traços pretos no branco por vezes lembram entalhes de madeira, e a narrativa segue uma mãe e seus três filhos na vida cotidiana de uma aldeia. Se é bom ver a estética africana explorada pela animação, incomoda um pouco que o curta tenha sido produzido na Rússia, por uma russa, Dina Velikovskaya. Nada contra a russa em si, e o vídeo é tocante, mas fica no ar a pergunta: não havia espaço no Anima Mundi 2017 para dar voz àqueles que são representados?

Mais do que entretenimento

A mostra especial do Anima Mundi 2017 a que a Falange compareceu foi extremamente interessante também porque demonstrou como a animação é uma ferramenta que ultrapassa o entretenimento. O desenho animado, e agora a modelagem digital, servem para criar relações afetivas com o público, a partyir de intenções diversas. O primeiro exemplo disso é a campanha protagonizada por Sujismundo, personagem utilizado para popularizar hábitos de higiene para a população brasileira na década de 70.

O Personagem Sujismundo dança com uma lixeira, na campanha publicitária em favor da higiene pessoal. SUJISMUNDO - Ode à Sujeira (Guilherme Alvernaz) Anima Mundi 2017
Um novo curta de Sujismundo, chamado ‘Ode à Sujeira’, foi produzido por Guilherme Alvernaz, e será exibido no Anima Mundi 2017.

Outra campanha publicitária mostrada, produzida pela Unicef e vencedora do Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação em 1980, Toda Criança (Every Child) trata do direito da criança e de abandono. O uso de animação, um gênero que atrai particularmente crianças, é especialmente adequado para tratar, de forma muito sensível, de um assunto que as envolve. A mensagem é que cada criança precisa de atenção e cuidado especiais, e que não podem ser colocados de fora – ou jogados no lixo, seguindo a imagem usada no curta – por causa de novos interesses ou tarefas que surgem na vida dos adultos.

O que esperar do Anima Mundi

Espalhado em diversos cinemas e centros culturais, o evento traz sessões de curtas e longa-metragens a preços acessíveis. Existem também exposições interativas e rodas de conversa com alguns dos diretores do filmes das mostras. O Anima Mundi 2017 tem centenas de produções em exibição, e serve para agradar todos os gostos. Certamente haverá um novo texto da Mãe (você também está convidada, Bastille), quando os finalistas e premiados do evento forem divulgados. Você pode conferir a programação completa do Anima Mundi 2017 aqui. Nos esbarramos pelas sessões.