A Décima Arte #0 | Sobre estética e jogos eletrônicos

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Vinheta da Mãe SerpenteSim, o título desse texto já introduz nosso assunto. O objetivo é falar sobre jogos eletrônicos, e discutir se videogames são arte. Mas antes disso, é necessário desviar um pouco do alvo, e retornar alguns séculos.

A era da reprodutibilidade técnica

Modernidade. A Era das Luzes. Toda a vida humana deveria ser destrinchada, compreendida e formatada pela Razão. As técnicas de expressão clássicas, e suas competências necessárias, foram reorganizadas pelos grandes homens da Ilustração em seis diferentes artes: arquitetura, pintura, escultura, música, literatura e teatro (e aqui se entende inclusas todas as artes cênicas, como a dança e a coreografia). Para que algo fosse considerado arte, além de pertencer a um desses grupo, deveria representar um esforço único, irreproduzível. A aura, a atribuição quase que mística que se dá a uma obra de arte, era definida em grande parte por sua incapacidade em ser reproduzida. A versão original da Monalisa possui o valor de arte verdadeira; todas as tentativas de reprodução seriam falsas.

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Não demorou muito para que o avanço das tecnologias de informação causasse problemas para a determinação iluminista do que era ou não arte. As técnicas de reprodução não apenas introduziram novas formas de se expressar, como também deram às antigas um novo potencial de circulação. Antes de existir uma forma de gravar a música em um suporte específico, a única forma de apreciá-la era estar presente em uma apresentação, ao vivo. A música deixaria de ser arte se sua reprodução industrial passasse a existir? E se a música começasse a ser produzida já pensando em sua reprodução técnica? O que dizer então da fotografia, que introduzia a capacidade de capturar fragmentos de imagens? Como atribuir um caráter artístico a alguma coisa que já nasce como reprodução? Afinal, não existe uma fotografia original; mesmo antes da digitalização das câmeras, um mesmo negativo poderia ser revelado inúmeras vezes, e dar origem a produtos perfeitamente idênticos.

Com a popularização do cinema, a discussão em torno da reprodutibilidade técnica se tornou central para a compreensão da arte, da estética e da expressão humana. Em 1922, um jornalista e crítico italiano, chamado Ricciotto Canudo, pela primeira vez se referiu ao cinema como a “sétima arte”. O termo foi rapidamente apropriado pelos marketeiros de Hollywood, e à fotografia restou o lugar de oitava arte, apesar de surgir algumas décadas antes do primeiro filme ser produzido.

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A evolução das impressoras automáticas, desde sua invenção ocidental por Gutenberg, em 1450, permitiram a reprodução de textos e imagens, com tiragens cada vez maiores e um preço cada vez mais baixo. Não demorou muito para que pequenas tirinhas fossem incluídas em materiais impressos, tiras que mais tarde se desenvolveriam até formarem revistas em quadrinho. Se a literatura é a arte de trabalhar a palavra, os quadrinhos trazem uma nova discussão estética, pois, para além da palavra, o quadrinho é também a manipulação de imagens, como a pintura. E não se trata apenas da união de duas artes independentes, já que nos quadrinhos imagem e palavra existem em uma relação de codependência. Seria, talvez, o caso de pensarmos nos quadrinhos como uma forma específica de expressão, uma nona arte.

Se não é consensual que os quadrinhos são uma nova forma de arte, é ainda mais polêmico considerar que um jogo eletrônico possa ser considerado artístico. Alguns jogos específicos podem ser aplaudidos por seu desempenho gráfico, por sua trilha sonora, por uma característica qualquer, específica, que se limite somente àquele jogo, e não à produção de videogames em si. Seria o caso, no entanto, de voltar ao início de nossa discussão, e nos perguntarmos o que é arte.

Jogos eletrônicos são arte?

Não existe uma resposta fácil. Arte é expressão humana, mas não qualquer expressão humana. Não consideramos, enquanto sociedade, uma conversa como arte, ou uma aula, ou um discurso político (embora a oratória fosse uma arte para o gregos). Arte é mais do que a simples expressão, é a expressão capaz de sensibilizar, capaz de fazer sentir. É a expressão ligada à capacidade estética do ser humano, ou seja, a arte está ligada ao prazer. Isso não significa que a arte intenciona agradar, fazer se sentir bem; a discussão do belo também inclui o feio. A arte engloba o sublime, mas também o grotesco, o asqueroso, o repulsivo.

Mais do que uma união de imagens e sons, os jogos eletrônicos são uma nova forma de arte porque por detrás da programação se encontra uma nova forma de expressão, uma nova forma de envolvimento e fruição, uma nova forma de partilhar emoções. Apesar dos scripts limitarem decisões, e apesar das barreiras artificiais impedirem o avanço de um personagem-jogador, os jogos eletrônicos são um produto artístico que necessariamente precisa da interação. Podem existir esculturas interativas, e uma exposição pode convidar seus apreciadores a pintarem com os dedos as paredes de um museu. Mas enquanto a interação é opcional em outras formas de expressão, ela é obrigatória  nos videogames.

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É claro que existem fórmulas padronizadas na produção de jogos. Assim como acontece em filmes, livros, músicas, obras arquitetônicas. Mas antes de discutirmos o valor de uma obra em específico, temos que admitir determinados critérios de julgamento. Existem bons filmes e maus filmes, música boa e música ruim, arte boa e arte ruim. O bom e o ruim, o belo e o feio, o sublime e o grotesco só podem ser comparados quando consideramos que as obras analisamos pertencem a um mesmo conjunto.

Jogos eletrônicos são arte, uma nova forma de arte. E como em qualquer tipo de arte, podemos criticar as repetições incentivadas por uma indústria cultural, ou aplaudir a inovação estética de um jogo. Podemos discutir como as limitações técnicas provocam soluções criativas, e como o gosto popular modifica o produto final. Podemos observar a apropriação de outras linguagens e expressões por jogos eletrônicos, e sua influência nas relações que as novas gerações criam com o mundo.

Em nossa coluna, A Décima Arte, iremos discutir estética, programação, inovação, gráficos, sons, interação, liberdade de escolha. Iremos discutir tudo aquilo que faz parte do universo dos jogos eletrônicos, em suas próprias características. Vamos analisar jogos em específico, como recursos utilizados em diferentes franquias. E vamos construir juntos uma nova percepção sobre esse universo em expansão, que é tão caro a tantos de nós.

Uma sibilante e sonora saudação da Mãe Serpente.